A vastidão do Brasil, que encanta em sua beleza, muitas vezes aprisiona em sua logística. Os fatos são claríssimos, e brutais: a infraestrutura de transportes do país sangra o Produto Interno Bruto em 15,5% ao ano, quase o dobro da média de nações mais desenvolvidas. Este dreno se manifesta em estoques inflados por juros altos e insegurança, em fretes rodoviários que dobraram em uma década, em roubos de carga que somam prejuízos bilionários e em portos que operam no limite da asfixia. É um gargalo que estrangula o comércio, encarece a vida e impede o florescimento de uma economia mais robusta e dinâmica.
A busca por eficiência é, portanto, uma necessidade premente. Mas a maneira como essa busca é conduzida e os critérios pelos quais o “ganho” é medido são o verdadeiro nó górdio. A tentação é simplificar o problema, reduzindo-o a uma mera equação de investimento e privatização. No entanto, a verdade é que os custos logísticos não são apenas números nas planilhas, mas também vidas, territórios e o próprio futuro de uma nação. Priorizar a redução de custos de transporte de granéis para exportação, como é o foco predominante das ferrovias e hidrovias existentes, sem um olhar para a capilaridade da indústria de transformação ou a distribuição interna, é construir artérias potentes que servem a poucos, enquanto o corpo social definha.
A legítima preocupação levantada pela Antítese não é contra o desenvolvimento, mas contra o desenvolvimento desordenado. Quando se revoga um decreto de concessão de rios amazônicos em face de protestos de povos indígenas, não se trata de um mero entrave burocrático, mas de um choque moral entre a lógica utilitarista e os direitos inalienáveis de comunidades tradicionais. A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, reitera que a propriedade, seja ela individual ou comum, possui uma função social. Os territórios e os modos de vida dessas populações não são meras externalidades a serem compensadas, mas bens internos que merecem reverência e proteção, fundamentos da dignidade da pessoa humana. Desmatar para novas vias ou dragar rios em ecossistemas sensíveis sem um planejamento integral e sem a devida escuta dessas comunidades é uma espécie de cegueira, que substitui a prosperidade social pelo lucro de alguns.
O investimento privado nas rodovias concedidas mostra que a iniciativa particular tem seu papel, mas não é a panaceia. A inação estatal, que nas últimas duas décadas investiu menos de um terço do PIB necessário para a infraestrutura, gerou uma conta alta demais para ser paga apenas por pedágios e taxas. A verdade é que a infraestrutura logística é um bem público essencial, e o Estado tem o dever de garantir que ela sirva ao bem da cidade inteira, não apenas aos vetores de maior rentabilidade. Aqui, a virtude da justiça é a bússola que deve guiar. Uma justiça que não é apenas distributiva, mas social, que assegura que os benefícios do progresso cheguem a todas as regiões e a todos os setores produtivos, fortalecendo a subsidiariedade e os corpos intermediários da sociedade.
O problema da logística no Brasil é, em sua essência, um problema de desordem. Falta uma prudência governamental que planeje a longo prazo, que integre os modais de transporte de forma orgânica, que leve em conta não apenas o tempo de viagem ou o custo do frete, mas o impacto ambiental, a segurança dos motoristas, a disponibilidade de mão de obra e a vitalidade das comunidades ao longo dos rios e das estradas. Não se trata de refrear o progresso, mas de governá-lo com sabedoria, discernindo o que é mero imediatismo do que é edificação duradoura.
A solução exige um olhar que vá além da métrica fria da eficiência econômica e abrace a complexidade da vida em comum. Significa um esforço conjunto, com investimento público estratégico onde o privado não alcança ou não se interessa, com regulação robusta que proteja o meio ambiente e os direitos das populações, e com uma visão intermodal que permita que trens, barcos e caminhões se complementem em uma rede que sirva, de fato, a todo o povo. É preciso construir caminhos que levem não só mercadorias, mas também oportunidades, justiça e dignidade a cada recanto do país.
Um país que não sabe como seus bens se movem de um canto ao outro, ou que o faz a custo de sua própria gente e de sua natureza, padece de uma desordem fundamental. A tarefa da infraestrutura é conectar, não dividir; é servir, não oprimir. O verdadeiro progresso logístico será aquele que ergue pontes e abre rotas para todos, garantindo que a pujança de nossa terra não se perca no atoleiro da má gestão, mas se converta em ordem justa para o corpo social.
Fonte original: Valor Econômico
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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