A escolha recente do novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, colocou a Rússia e os Estados Unidos em lados opostos. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, expressou descontentamento com a decisão, enquanto o presidente russo, Vladimir Putin, prometeu apoio inabalável ao novo líder iraniano. A eleição de Mojtaba Khamenei foi reportada em 10 de março de 2026, com o presidente Trump declarando em 9 de março sua insatisfação com a escolha.
A lista de candidatos ao posto de líder supremo variava entre cinco e oito nomes, incluindo figuras consideradas moderadas como o ex-presidente Hassan Rouhani e Hassan Khomeini, neto do fundador do regime dos aiatolás. A linha dura prevaleceu com a eleição de Mojtaba Khamenei, 56 anos, um veterano da guerra Irã-Iraque que nunca ocupou um cargo político, mas atua nos bastidores. Ele possui ligações profundas com a Guarda Revolucionária e o corpo de elite, as Forças Quds, sendo visto por analistas como mais próximo ao aparato repressivo do regime que seu pai, o aiatolá Ali Khamenei. A Guarda Revolucionária é apontada por grupos de defesa dos direitos humanos como a responsável pelo massacre de até 30 mil pessoas nos dias 8 e 9 de janeiro, durante a maior revolta contra o regime, que começou motivada pela crise econômica.
Mojtaba Khamenei já havia se declarado contrário aos Estados Unidos e a Israel. As responsabilidades do líder supremo são abrangentes, conforme explicou Eric Lob, professor de política externa da Universidade da Flórida: "O líder supremo é a mais alta autoridade política e religiosa, comanda as forças armadas, supervisiona a imprensa estatal, assim como o Conselho dos Guardiões, que tem o poder de vetar candidatos à presidência e ao Parlamento. E ainda pode vetar leis aprovadas pelo Congresso". Nesta segunda-feira (9), em entrevista à rede Fox News, o presidente Donald Trump afirmou que "não está feliz com a escolha de Mojtaba", após ter dito na semana anterior que o nome de Mojtaba era inaceitável para os americanos. O presidente russo, Vladimir Putin, parabenizou o novo líder supremo e ofereceu apoio inabalável. O Ministério das Relações Exteriores da China, por sua vez, declarou que o processo de escolha seguiu a Constituição do Irã, mas recusou-se a comentar.
Oficialmente, a Assembleia de Especialistas do Irã elegeu Mojtaba Khamenei de acordo com a lei do país. No entanto, fontes da imprensa internacional afirmam que a Guarda Revolucionária exerceu influência direta na escolha, interpretando-a como uma mensagem de desafio aos Estados Unidos. O professor Lob indicou que Trump tinha planos de "encontrar alguém dentro do regime, como fez na Venezuela, para defender os interesses dos Estados Unidos - como garantir acesso a gás, petróleo e minerais", mas a eleição de Mojtaba é vista como uma forte mensagem de resistência por parte do regime. Israel já havia advertido que o sucessor de Ali Khamenei seria assassinado por causa de sua postura em relação a Israel e suas ligações com grupos como Hamas e Hezbollah.
A recente eleição do novo Líder Supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, e a subsequente polarização entre potências globais como Estados Unidos e Rússia, tendem a velar as profundas assimetrias de poder e os custos humanos subjacentes. Reduzir o evento a um mero xadrez geopolítico desvia a atenção da análise crítica das dinâmicas internas de repressão e da busca por direitos fundamentais da população iraniana. A narrativa oficial e a externa frequentemente relegam a um segundo plano as vulnerabilidades sociais que desencadearam a revolta anterior e a maneira como o poder se consolida à custa da participação popular e da equidade.
A ascensão de Mojtaba, com fortes ligações à Guarda Revolucionária e sua eleição supostamente influenciada por esta mesma força, evidencia a cristalização de uma estrutura de poder que se sustenta na repressão. O massacre de até trinta mil pessoas em resposta a uma revolta motivada pela crise econômica não é um detalhe marginal, mas o cerne da questão: a imposição de um regime que sacrifica vidas humanas e direitos coletivos para manter sua hegemonia. Conforme Boaventura de Sousa Santos argumenta, a legalidade formal de um processo eleitoral não garante sua legitimidade democrática quando forças sociais e políticas são brutalmente suprimidas, revelando um "fascismo social" que se escora na institucionalidade para perpetuar a dominação. A busca explícita do presidente Trump por "alguém dentro do regime" para "defender os interesses dos Estados Unidos" em termos de acesso a gás, petróleo e minerais, expõe uma lógica neocolonial que instrumentaliza nações soberanas para benefício externo, reforçando dinâmicas de poder globais desiguais.
Essa instrumentalização, aliada à perpetuação de uma linha dura no poder iraniano, impede que a "resistência" seja interpretada como um movimento de emancipação popular. Ao invés, ela reflete a reafirmação de uma elite que, internamente, oprime sua própria população para assegurar sua posição, um padrão que Jessé Souza descreve ao analisar como elites se beneficiam da manutenção de estruturas de dominação. A crise econômica que deflagrou os protestos é um lembrete pungente de que a instabilidade política e a ausência de direitos frequentemente decorrem de profundas desigualdades estruturais, onde a falta de políticas públicas inclusivas e a concentração de riqueza exacerbam o sofrimento das camadas mais vulneráveis socialmente.
Para que qualquer nação possa avançar em direção à democratização e à equidade, é imperativo que a escolha de seus líderes reflita a verdadeira vontade popular, desimpedida de interferências externas e da pressão de aparatos repressivos. Isso exige um compromisso com a redistribuição de poder e riqueza, a garantia irrestrita dos direitos fundamentais, e a construção de canais autênticos para a participação popular. Somente com o desmantelamento das estruturas de privilégio e a priorização das necessidades coletivas sobre os interesses geopolíticos ou as ambições de elites será possível pavimentar o caminho para uma sociedade mais justa e verdadeiramente soberana, onde a paz social seja construída pela justiça, e não imposta pela força.
Liderança no Irã: Geopolítica, Soberania e Dignidade Humana
A recente sucessão na liderança suprema do Irã, que alçou Mojtaba Khamenei ao posto, expôs, uma vez mais, a complexa trama que entrelaça interesses geopolíticos e a busca pela dignidade humana, reverberando em todo o cenário internacional. O embate entre grandes potências, com Washington expressando descontentamento e Moscou prometendo apoio, pode facilmente desviar o olhar do cerne da questão: a soberania de um povo e a finalidade última de qualquer forma de governo. Não se trata apenas de um jogo de xadrez entre nações, mas de um drama humano onde o princípio do bem comum deveria ser a estrela-guia.
Interesses Geopolíticos e a Crise Interna
É inegável que a escolha do novo líder se insere em um contexto de disputa por influência e recursos, como o acesso a gás e petróleo, conforme sugerido pelos interesses americanos na região. Contudo, reduzir a análise a essa dimensão instrumental é ignorar as legítimas preocupações com as dinâmicas internas de poder e a repressão de direitos fundamentais. A notícia do massacre de milhares durante revoltas populares, motivadas pela crise econômica, não pode ser tratada como mera nota de rodapé em um grande tabuleiro geopolítico. Revela-se aqui uma tensão profunda entre a legalidade formal de um processo eleitoral e a sua legitimidade substancial, que exige o respeito à vida e à participação popular, princípios inerentes à própria dignidade da pessoa humana.
Poder, Repressão e a Perda de Legitimidade
A ascensão de um líder com fortes laços à Guarda Revolucionária, percebida como um braço repressivo do regime, desafia a ideia de que a "resistência" de um Estado pode ser dissociada da liberdade de seu próprio povo. Como nos lembra Hannah Arendt, o poder autêntico nasce do consenso e da ação conjunta, enquanto a violência é o seu oposto, capaz de destruir o poder mas jamais de criá-lo. Quando a manutenção do regime se sobrepõe à proteção dos cidadãos e à garantia de seus direitos, quando a lei é usada para justificar a opressão, a autoridade perde seu fundamento moral. A mera conformidade com um processo constitucional não confere validade ética a um governo que ignora a lei natural inscrita no coração de cada homem, que clama por justiça e liberdade.
A Finalidade do Estado e o Imperativo do Bem Comum
A verdadeira superação deste dilema passa por uma reflexão sobre a finalidade do poder e do Estado, que, segundo a tradição aristotélico-tomista, não existe para si mesmo ou para a satisfação de interesses particulares, sejam eles internos ou externos, mas para o bem comum de seus cidadãos. A prudência, virtude que nos permite discernir o verdadeiro bem e os meios para alcançá-lo, impõe que reconheçamos que nem a intervenção externa com motivações puramente pragmáticas, nem a consolidação interna de um poder por vias repressivas, servem ao florescimento humano. O bem comum exige que a voz do povo seja ouvida e que seus direitos sejam assegurados, não apenas como uma concessão, mas como um dever intrínseco do governante. A subsidiariedade, por sua vez, nos lembra que as decisões devem ser tomadas no nível mais próximo possível dos afetados, incentivando a participação e a responsabilidade civis.
O Papel da Comunidade Internacional
Nesse sentido, a comunidade internacional, para além de suas jogadas estratégicas, possui um dever de solidariedade. Não se trata de uma ingerência que desrespeite a soberania, mas de um testemunho moral que defenda a dignidade de cada iraniano. É preciso fomentar um ambiente onde a verdadeira soberania, aquela que reside na capacidade de um povo escolher seu destino com justiça e liberdade, possa florescer. A busca por acesso a recursos naturais, legítima em sua esfera, jamais poderá justificar o sacrifício de vidas humanas ou a supressão de direitos, pois a economia deve estar a serviço do homem, e não o contrário.
Conclusão: Fundamentos para Paz e Justiça
Portanto, a elevação do debate sobre a liderança iraniana transcende a mera disputa geopolítica ou a análise da legalidade de sua sucessão. Ela nos convoca a uma reflexão mais profunda sobre os fundamentos da autoridade política e sobre a irrenunciável dignidade de cada pessoa. Somente quando os governos se orientam pela razão reta e pela virtude, buscando o bem comum de seus povos acima de quaisquer interesses particularistas, é que a paz e a justiça podem se estabelecer como alicerces de uma sociedade verdadeiramente livre e próspera. A prudência nos adverte que o caminho é árduo e exige discernimento constante, mas a fidelidade aos princípios da lei natural oferece a bússola para atravessar as tempestades da política.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.