Em Luque, Paraguai, o salão da Conmebol se vestiu de gala para o sorteio da Copa Libertadores de 2026. Esferas se chocaram, nomes foram anunciados, e a grande tapeçaria da "Glória Eterna" começou a ser tecida no imaginário coletivo. Flamengo, Palmeiras e Fluminense, com seus brios recentes, e o histórico Cruzeiro, junto a outros gigantes e algumas "revelações", como Mirassol, viram seus destinos iniciais traçados nos grupos da competição. Há, contudo, uma cortina que este espetáculo, por mais fascinante que seja, ergue e simultaneamente oculta.
Por trás da aparente aleatoriedade dos grupos, onde alguns são batizados de "da morte" e outros de "relativamente tranquilos", reside uma estrutura que, anualmente, reafirma desequilíbrios mais profundos do que qualquer sorteio pode corrigir. A narrativa que celebra a imprevisibilidade do futebol sul-americano, e a ascensão de "revelações" pontuais, muitas vezes dissimula uma realidade de profundas assimetrias financeiras, de infraestrutura e até geográficas. O drama do esporte, quando se torna preponderantemente a epopeia de David contra Golias, corre o risco de virar uma crônica repetida e, no fundo, bastante previsível.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente pelos ensinamentos de Pio XI sobre a justiça social e a necessidade de uma ordem que não oprima os corpos intermediários, nos recorda que uma competição verdadeiramente justa exige mais do que meras regras formais. Exige condições equitativas na largada. Quando o abismo financeiro entre os clubes é tão vasto, a pregação da "imprevisibilidade" converte-se em um eufemismo que esconde a previsibilidade dos resultados finais. Há uma desonestidade sutil em vender o sorteio como a essência do drama, sem abordar o que acontece quando o espetáculo dos duelos iniciais cede lugar à inexorável máquina dos orçamentos bilionários.
É aqui que se manifesta a loucura lógica que Chesterton talvez risse: a insistência em buscar o "drama" na aleatoriedade de um sorteio, enquanto se ignora a previsibilidade estrutural que a desigualdade de recursos impõe. O que deveria ser um torneio que eleva o nível de todo o continente, com a Conmebol atuando como um corpo intermediário que promove a justiça distributiva entre os seus filiados, acaba por consolidar a hegemonia de poucos. Os "clubes revelação", por mais que inspirem em um ano, raramente conseguem sustentar tal ímpeto sem as bases financeiras e estruturais que garantam a longevidade competitiva.
O campeão da 67ª edição do torneio, que erguerá a taça em Montevidéu em 28 de novembro, garantirá não apenas a Libertadores de 2027, mas também participações na Copa Intercontinental da Fifa de 2026 e na Copa do Mundo de Clubes de 2029. Estes prêmios, que deveriam ser incentivos para a excelência geral, acabam por aprofundar o fosso, consolidando as potências existentes e dificultando ainda mais a ascensão dos que buscam um lugar ao sol. A mídia, neste contexto, tem a responsabilidade, como Pio XII nos ensinou sobre a ordem moral pública, de ir além da celebração superficial do espetáculo, denunciando as estruturas que falseiam a promessa de um jogo verdadeiramente aberto e justo.
Não se trata de negar a paixão ou a beleza do futebol, mas de exigir que a verdade da competição esteja ancorada em bases mais sólidas de justiça. A Conmebol, como autoridade que rege a matéria, tem o dever de repensar a distribuição de prêmios e a criação de mecanismos que fomentem um nivelamento competitivo real, e não apenas simbólico. Fortalecer o que está perto, não esmagar os corpos vivos da sociedade futebolística, é o caminho para uma vitalidade duradoura. Em vez de uma cortina de fumaça que ofusca as desigualdades, o sorteio poderia ser o convite a um exame mais profundo das fundações sobre as quais o futebol continental se assenta. A paixão que move multidões merece uma competição onde o sonho não seja apenas uma miragem econômica, mas uma possibilidade real para a reta ambição. A justiça, assim, não é um obstáculo ao espetáculo, mas o próprio alicerce que sustenta a sua grandeza.
Fonte original: Correio do povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.