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Israel-Líbano: Negociações de Paz sob Mísseis e Ilusões

Enquanto Israel negocia paz com o Líbano, ataques prosseguem. A coluna expõe como essa "diplomacia" ignora a realidade local e atores chave como o Hezbollah, construindo um acordo insustentável.

🟢 Análise

A paz, por vezes, é anunciada ao som de morteiros e sobre os escombros ainda fumegantes. É um paradoxo que não apenas desrespeita a inteligência, mas zomba da própria realidade, revelando uma dissimulação que turva as águas da verdadeira diplomacia. Israel, sob pressão americana, acena com negociações diretas de paz com o governo libanês, marcando um encontro em Washington. Contudo, essa mão estendida para a mesa de conversações vem acompanhada de mísseis que ainda atingem o Líbano, ceifando centenas de vidas e fragilizando um cessar-fogo já tênue com o Irã. Não é paz o que se constrói com uma mão enquanto se destrói com a outra.

A tensão regional é palpável, e as retaliações são uma triste moeda corrente. Enquanto o Ministro da Defesa israelense celebra a “eliminação” de mais de duzentos integrantes do Hezbollah, o grupo responde com foguetes. O Irã, por sua vez, reage com ultimatos sobre o vital Estreito de Ormuz, onde, segundo o novo líder supremo Mojtaba Khamenei, o controle entrará em “nova fase”, e alegações de Donald Trump sobre pedágios e acordos quebrados adicionam mais lenha à fogueira da instabilidade econômica global. A retórica de vingança do Irã, especialmente após a morte do aiatolá Ali Khamenei, e a ascensão de um novo líder com uma agenda de retribuição, tornam qualquer prospecto de estabilidade regional uma aposta arriscada.

A grande questão, que se eleva acima do barulho da guerra e das promessas diplomáticas, reside na honestidade das intenções e na veracidade do processo. Como pode haver um “acordo de paz histórico e duradouro”, como aspira Benjamin Netanyahu, que ignore a complexa arquitetura de poder no Líbano, onde o Hezbollah exerce uma influência militar e política inegável? Negociar apenas com o governo libanês, sem a participação ou aceitação de um ator tão central, é uma ilusão de subsidiariedade. É impor uma “solução” de cima para baixo, desconsiderando a capacidade de autogoverno e as dinâmicas sociais reais do povo libanês. Ignora-se que a soberania não se decreta apenas em gabinetes, mas se vive na malha social.

Aqui, a sabedoria tomista nos lembra da ordem dos bens e da primazia da realidade. O que se pretende alcançar com a diplomacia deve estar em consonância com as condições materiais e morais do terreno. Não se pode pretender desarmar um grupo armado por meio de um acordo com um governo que não possui o monopólio da força em seu próprio território, ainda mais sob o som de bombardeios. Isso não é diplomacia; é uma tática de guerra assimétrica, buscando a capitulação política disfarçada de negociação. É uma falta de veracidade que, no fim, não serve à paz, mas à perpetuação do conflito, ainda que por outros meios. A verdadeira fortaleza moral reside em enfrentar a realidade em toda a sua complexidade, e não em simplificá-la para convir a um propósito militar ou político.

Chesterton, com sua perspicácia para desmascarar as loucuras lógicas da modernidade, talvez diria que anunciar a paz enquanto se faz a guerra é como tentar apagar um incêndio com gasolina: uma loucura que só a “razão” ideológica é capaz de conceber. A sanidade nos exige reconhecer que a paz não é a ausência de hostilidades pela imposição unilateral, mas a presença de uma ordem justa e a livre adesão dos envolvidos a ela. A dignidade do povo libanês exige que não seja tratado como massa passiva a ser moldada pela pressão externa, mas como um corpo social com suas próprias complexidades e anseios.

Um acordo de paz que ignore os atores reais, que seja fruto de coerção e que ocorra em meio a uma escalada militar, é uma construção sobre areia movediça. Não oferece garantias de durabilidade nem de justiça. Pelo contrário, apenas acentua as assimetrias e fomenta o ressentimento, alimentando o ciclo de violência. Sem esta honestidade radical e esta fortaleza para buscar uma paz genuína, fundada na justiça e na consideração da realidade, o que se vende como acordo não passará de um armistício precário, uma tática de guerra que adia o inevitável ou, pior, o agrava. A paz não é um jogo de sombras, mas a luz da verdade sobre os caminhos da convivência.

Fonte original: globo.com

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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