O cheiro de pólvora e a fumaça que pairam sobre o Líbano parecem não alcançar as salas climatizadas onde se debatem as condições de uma trégua. Enquanto a carne e o cimento se misturam nas ruas de Beirute e nas fronteiras, ceifando vidas inocentes aos bandos, as grandes potências parecem ensaiar uma peça diplomática cujo roteiro principal foi rasgado antes mesmo de ser lido. A cena é de uma crueldade absurda: um “cessar-fogo” negociado que, por sua própria concepção, nega a paz aos que mais sofrem a guerra, transformando a esperança de calmaria em uma farsa bem urdida, mas transparente aos olhos da reta razão.
O que se apresenta como um esforço de desescalada revela-se um jogo de soma zero, onde a condição essencial de um lado é peremptoriamente rechaçada pelo outro. O presidente iraniano insiste, com toda a legitimidade de quem fala por um povo sob tensão, que um cessar-fogo no Líbano é “condição essencial” para qualquer plano de dez pontos com os Estados Unidos. Contudo, do outro lado da mesa, o vice-presidente americano reage com a frieza dos estrategistas: o conflito libanês, para Washington, “não tem nada a ver” com a trégua principal. Mais do que uma divergência tática, há aqui uma cisão radical na própria ideia de paz, um abismo que nenhuma retórica oficial pode disfarçar. A veracidade, pedra angular de qualquer ordem social e política duradoura, é a primeira vítima deste cenário. Como se pode edificar um acordo sobre premissas tão mutuamente excludentes?
A fratura da verdade estende-se também à dinâmica interna dos atores. Se o presidente iraniano Pezeshkian busca um arranjo com o Líbano incluído, o presidente do Parlamento, Ghalibaf, apressou-se em declarar as conversas “pouco razoáveis”, citando violações de princípios por parte dos EUA e, notadamente, os ataques em solo libanês. Essa contradição interna no Irã adiciona uma camada de névoa à paisagem já turva, questionando a autoridade real para selar um acordo e transformando as mesas de negociação em um mero palco de pronunciamentos contraditórios. A alegação iraniana de “possíveis colisões com minas” no Estreito de Ormuz, embora sirva para justificar rotas alternativas, não vem verificada de forma independente, contribuindo para a desconfiança regional e a urgência dos Emirados Árabes Unidos em pedir clareza sobre as “modalidades da trégua” e reparação por danos já causados.
A verdadeira tragédia, porém, se desenrola nos hospitais do Líbano, onde 182 mortos e quase 900 feridos choram a brutalidade de ataques que são ignorados pelo grande arranjo diplomático. O decreto de luto nacional do primeiro-ministro Nawaf Salam é um grito de indignação, um lembrete do custo humano de uma “paz” que deliberadamente escolhe quem vai viver e quem vai morrer. A Turquia, ao condenar os ataques e exortar a comunidade internacional a agir, capta o cerne da questão: não pode haver paz duradoura sem justiça, e não há justiça onde a vida humana é tratada como moeda de troca geopolítica, um dano colateral aceitável em nome de um armistício precário.
A tensão se espalha e corrói até as estruturas das alianças históricas. A percepção da Casa Branca de que a OTAN “deu as costas” aos Estados Unidos na guerra com o Irã, às vésperas de uma reunião bilateral, é sintomática de uma desagregação da confiança que não se restringe a este conflito. Quando a verdade dos propósitos se dilui e os interesses divergentes obscurecem os princípios, a unidade internacional se desfaz, abrindo rachaduras por onde podem escoar futuras crises. Não se pode pedir solidariedade onde não há clareza de intenções e um mínimo de partilha de sacrifícios.
A suspensão de restrições em grande parte de Israel e a reabertura dos lugares sagrados em Jerusalém, ao mesmo tempo em que a fronteira norte com o Líbano permanece em chamas, pintam um quadro desolador. É a paz para uns, à custa da guerra para outros. Essa distinção arbitrária não apenas viola a justiça distributiva, mas também deslegitima qualquer pretensão de ordem moral universal. A doutrina social da Igreja, ancorada em Leão XIII e Pio XII, sempre alertou para o perigo de uma paz que não seja a “tranquilidade da ordem”, mas sim a imposição violenta de um equilíbrio precário, onde os mais vulneráveis são os primeiros a pagar.
Não há caminho para uma paz duradoura que ignore os princípios da veracidade e da justiça. Os “negociadores” podem trocar apertos de mão e promessas ambíguas, mas a realidade do sangue e da desolação no Líbano expõe a fragilidade, a hipocrisia e a insustentabilidade de tais arranjos. A paz autêntica não é um tratado assinado sob a sombra da mentira, mas a edificação paciente de uma ordem onde os direitos de todos são reconhecidos e protegidos, sem exceção, e onde a verdade, por mais dura que seja, é o alicerce inegociável de qualquer construção.
Fonte original: GZH
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.