A arquitetura da paz, quando edificada sobre areia movediça de ambiguidades, não resiste ao primeiro vendaval do conflito. Beirute tremeu mais uma vez, não apenas sob os estrondos da ofensiva israelense que ceifou centenas de vidas em um único dia, mas sob o peso de um acordo diplomático tão opaco quanto as águas turvas do Golfo. A tragédia libanesa, com seu luto nacional e suas sirenes de desespero, não é apenas o resultado da ação militar de Israel; é o fruto amargo de uma negociação internacional cujos termos, para dizer o mínimo, eram um mapa rasurado.
Os fatos são brutais: o 41º dia de guerra marcou para o Líbano o ápice da carnificina, com 254 mortos e mais de mil feridos, segundo a Al Jazeera. O grito do primeiro-ministro Nawaf Salam, de mobilizar “todos os recursos políticos e diplomáticos para deter a máquina de matar israelense”, ecoa a desproporção e a dor. Mas, subjacente a essa escalada sangrenta, reside uma grave falha na veracidade pública e na comunicação responsável, princípios caros à Doutrina Social da Igreja, especialmente como ensinado por Pio XII. Enquanto Irã e Paquistão afirmam que o cessar-fogo incluía o Líbano, vozes dentro do governo dos Estados Unidos, como JD Vance, insistem no contrário, e a “confusão” interna na Casa Branca é admitida. Não se pode invocar a lei dos homens ou a reta razão quando a própria clareza dos pactos fundamentais está em disputa.
A objeção, legítima, é que não se pode acusar Israel de violar um acordo se o próprio escopo geográfico desse acordo era objeto de controvérsia entre as potências que o firmaram. Benjamin Netanyahu, ao afirmar que Israel “ainda tem objetivos a cumprir” e os alcançará “seja por meio de um acordo ou por meio da retomada dos combates”, expõe a realidade nua e crua de uma zona cinzenta de segurança. No entanto, a justiça (virtude cardeal que ordena as relações entre os homens e as nações) demanda que o Líbano, uma nação soberana, não seja o tabuleiro onde se desenrola a ambiguidade diplomática das grandes potências. O princípio da subsidiariedade, defendido por Pio XI, exige que a dignidade dos corpos intermediários (ou, neste caso, das nações soberanas) seja respeitada e não esmagada pela ação unilateral ou pela negligência dos poderes maiores.
Essa assimetria de poder e a falta de uma definição clara sobre os termos do cessar-fogo criaram um vácuo moral e estratégico. A população civil libanesa, o governo libanês e a própria credibilidade da diplomacia internacional pagam o preço por essa confusão. A condenação internacional, ainda que justa em face da perda de vidas, soa incompleta se não apontar também para a origem dessa desordem: a irresponsabilidade na comunicação e a falta de uma vontade política firme em garantir que os acordos de paz sejam compreensíveis e vinculantes para todos os afetados, e não apenas para alguns à mesa de negociação.
A paz, como a “tranquilidade da ordem” ensinada por Santo Agostinho, não pode florescer onde a verdade é elástica e os compromissos são volúveis. Não basta cessar fogo em uma frente para que o incêndio se propague em outra. A diplomacia, para ser justa e eficaz, deve transcender a negociação de conveniência e abraçar a honestidade radical sobre os termos e alcances de seus pactos.
A urgência de proteger os civis e conter a violência, como ressaltado pelos líderes do Iraque e da França, não pode ser dissociada da exigência de clareza e veracidade. Somente um compromisso firme com a verdade dos fatos e a integridade dos acordos poderá reconstruir a confiança e pavimentar um caminho para a justiça na região.
Não se edifica uma paz duradoura sobre as arestas de um entendimento obscuro.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.