A política de Santa Catarina, como um espelho cru de tantos outros palcos nacionais, tem exposto com insistência um espetáculo que, para além da dança das cadeiras e dos cálculos eleitorais, fere uma fibra mais profunda da convivência humana e da governança: a do compromisso e da lealdade. Não se trata de uma coleção isolada de incidentes, mas de um padrão que se desenha com nitidez: governador que abandona secretário leal em troca de um apoio precário, prefeito que vira as costas para o candidato do próprio partido, acordos de vice-governador desfeitos por “arranjos de conveniência”, apoios históricos a veteranos políticos descartados para dar lugar a forasteiros. Tudo em nome do que alguns chamam, eufemisticamente, de “pragmatismo político” ou “adaptação estratégica”. Mas, sob o olhar da reta razão e da lei natural, a questão é muito menos fluida e muito mais grave.
De fato, o que se observa não é a virtude da prudência em ação, mas o vício do oportunismo disfarçado de sagacidade. São Tomás de Aquino nos recorda que a prudência é a reta razão no agir, a virtude que discerne o bem real em cada circunstância e escolhe os meios para alcançá-lo. Ela não é a justificação para a traição ou para a inconstância, mas a bússola que orienta a vontade para o bem comum, inclusive na difícil arte de governar. Que “a política é a arte do possível” é uma máxima verdadeira, mas ela não anula a moralidade das ações. O possível deve estar sempre contido no moralmente lícito, pois a busca pelo poder, quando desacompanhada da virtude, degenera em mera ambição egoísta, minando a confiança – o capital mais precioso em qualquer comunidade, seja ela familiar, social ou política.
A Doutrina Social da Igreja é clara: a autoridade política, para ser legítima, deve procurar o bem comum, pautando-se pela lei moral. O bem comum não é a soma dos interesses particulares, nem a hegemonia de um grupo sobre o outro, mas “o conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada um dos membros, atingir a sua perfeição mais plena e mais facilmente” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1906). Quando alianças são feitas e desfeitas com a rapidez de um piscar de olhos, sem a menor consideração por princípios ou pela estabilidade das relações, questiona-se não apenas a moralidade dos atores, mas a própria finalidade de suas ações. A “conveniência” não pode ser a baliza suprema, sob pena de transformarmos a governança em um mero jogo de dados, onde os princípios são as fichas descartáveis e o prêmio é o poder pelo poder.
É aqui que a mente de Chesterton nos ilumina. O que é mais contraditório do que defender a “flexibilidade” política a ponto de ela se tornar uma licença para a inconstância, uma apologia da deslealdade? O senso comum, esse oráculo da verdade popular que Chesterton tão bem defendia, sabe que uma promessa quebrada é uma promessa quebrada, seja ela eleitoral ou pessoal. A tentativa de justificar a quebra de pactos como uma mera “renegociação estratégica” é uma acrobacia retórica que, por mais elaborada que seja, não consegue esconder a fenda moral que se abre. Não se trata de impor um ideal ético inatingível, mas de exigir o mínimo de coerência e fidelidade que é fundamental para a dignidade da pessoa humana e para a saúde da vida pública. A adaptabilidade é, sim, uma virtude política; mas a adaptabilidade que se vale da mentira ou da traição é um vício, pois destrói o fundamento da convivência.
Podemos, com efeito, reconhecer que a política é um campo de forças, de pressões e de necessidades estratégicas. Há momentos em que a prudência exige uma reavaliação de cenários, uma mudança de rota em busca de um bem maior ou para evitar um mal ainda maior. Mas isso é fundamentalmente diferente de um padrão sistemático de abandonos motivados por “cálculos pessoais” ou pela busca incessante de uma base mais ampla, sem que se consiga discernir um princípio superior que justifique a quebra dos compromissos anteriores. A dignidade da pessoa humana não se reduz a uma peça no tabuleiro de xadrez do poder. As pessoas – sejam elas eleitores, militantes ou colegas de chapa – merecem respeito, verdade e a garantia de que a palavra dada tem peso e valor. Sem isso, a política se esvazia de sentido e se torna um palco de cinismo.
Os que defendem que a política é “assim mesmo”, que a “ética da responsabilidade” exige a primazia dos resultados sobre os compromissos iniciais, parecem esquecer que os fins não justificam os meios, especialmente quando esses meios corroem o tecido moral da sociedade. A instabilidade gerada por essa inconstância calculada não apenas mina a confiança pública nos políticos e nas instituições, como também dificulta a implementação de políticas públicas de longo prazo, um problema real apontado pela própria objeção. O eleitorado, ao se sentir enganado ou manipulado, distancia-se, e o fosso entre a sociedade e seus representantes se alarga, gerando uma desordem moral que, no limite, ameaça a própria legitimidade da autoridade.
Portanto, o que se manifesta nas recentes danças de alianças em Santa Catarina não é um mero e inofensivo jogo de estratégias, mas a manifestação de um déficit de virtude, de um esquecimento dos deveres mais elementares da probidade e da lealdade que todo homem, e com maior razão o homem público, deve a seus pares e à sociedade. A política não é um campo onde a moralidade tira férias; é, pelo contrário, o lugar onde a moralidade se mostra mais urgente e necessária, pois suas consequências afetam a todos. É preciso reafirmar que, mesmo em meio à complexidade das negociações, a verdade e a fidelidade não são luxos, mas alicerces. Pois de que adianta conquistar o mundo político se, no processo, o político perde a própria alma, e o povo perde a sua fé na palavra dada?
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
Artigos Relacionados
PCO: Ideologia, Geopolítica e a Doutrina Social da Igreja