A imagem dos pés lavados, um gesto que ecoa a mais profunda humildade e serviço, foi mais uma vez elevada ao palco público. O Ministério da Saúde, com sua “Campanha Lava-Pés: cuidado com os pés diabéticos”, lança um holofote sobre uma chaga real: o diabetes, que aflige cerca de 12,9% da população brasileira e cresceu 134% desde 2006, sendo a principal causa de amputações de membros inferiores no país. A iniciativa, de fato, visa um bem inegável: prevenir feridas, infecções e a dor da perda de autonomia. As orientações sobre alimentação, uso de medicamentos e autocuidado, acompanhadas da aferição da pressão arterial, são ações louváveis em sua intenção de promover a saúde pública.
Contudo, entre o nobre simbolismo e a dura realidade da enfermidade crônica, reside um abismo que a campanha, em sua efemeridade de apenas nove dias, não parece capaz de transpor. É uma desproporção evidente. Ações pontuais, por mais bem-intencionadas que sejam, pouco podem fazer para reverter uma tendência de crescimento tão acentuada e uma problemática tão complexa quanto o pé diabético, que exige vigilância, acesso e tratamento contínuo, especializado e capilarizado em toda a rede de atenção. Não se edifica uma catedral com um mutirão de um fim de semana, nem se combate uma doença crônica com a mobilização performática de alguns dias.
O relatório Vigitel e as recomendações da Conitec são marcos importantes, apontando a necessidade de ampliar o uso de insulinas análogas e fortalecer as linhas de cuidado. No entanto, o que a sociedade espera, e o que a reta razão exige, não são apenas recomendações e campanhas promocionais, mas a garantia de que tais avanços serão efetivamente implementados e acessíveis em todo o território nacional. A questão não é se o SUS destina R$ 586 milhões ao ano para o tratamento do diabetes – um valor expressivo –, mas sim qual a transparência e a eficácia na alocação desses recursos para a prevenção e o manejo precoce de úlceras e amputações, especialmente na atenção primária, onde o combate inicial se decide.
A virtude da justiça social, um pilar da Doutrina da Igreja, impõe ao Estado o dever de não apenas reconhecer as necessidades de seu povo, mas de construir estruturas que assegurem o direito à saúde de forma permanente e equitativa. A saúde de um povo não pode depender do calendário de campanhas esporádicas. A crítica à estatolatria, feita por Pio XI, lembra que o Estado deve servir o povo em suas necessidades concretas, fortalecendo os corpos intermediários e as iniciativas locais, e não massificando o cuidado em ações centralizadas e de curto fôlego que podem gerar mais frustração do que solução duradoura.
O verdadeiro lava-pés do serviço público se manifesta na laboriosidade incessante dos profissionais da saúde, no investimento contínuo em capacitação, na disponibilidade de insumos e tecnologias, na qualificação de linhas de cuidado que não são apenas “necessárias”, mas se tornam uma realidade palpável para o paciente, do Morro da Conceição ao mais distante rincão. É a responsabilidade de construir uma fundação sólida de atendimento, e não apenas pintar uma fachada com a tinta brilhante de uma campanha. A dignidade da pessoa humana não se contenta com o espetáculo, mas exige o cuidado constante e invisível que sustenta a vida.
Portanto, enquanto o gesto simbólico do lava-pés pode, em si, evocar os mais altos ideais de empatia e serviço, sua instrumentalização por uma campanha de fôlego tão curto, diante da magnitude e cronicidade da enfermidade, soa mais como um paliativo moral do que uma solução integral. A sociedade tem o direito de indagar: para quando o plano de ação permanente, robusto e transparente que transforme os discursos em realidade e as promessas em saúde de fato?
O verdadeiro cuidado se manifesta não no brilho efêmero dos holofotes, mas na solidez da estrutura que serve a todos, dia após dia.
Fonte original: Sair do Brasil
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.