A ideia de ouvir a juventude, de dar voz aos que amanhã herdarão o tempo presente, ressoa com a mais bela intenção da república. Mas a mera convocação, se não seguida de um processo robusto e de compromisso real, pode converter-se em mero rito burocrático, uma sinfonia de aspirações que o vento leva. O Fórum das Juventudes, recém-realizado em Campo Grande, com seus 172 participantes de sete municípios e as 40 propostas consolidadas em cinco eixos, apresenta-se como um esforço louvável de participação. Contudo, a verdadeira justiça e a honestidade intelectual demandam um escrutínio que vá além do protocolar, investigando a solidez dos alicerces sobre os quais se pretende erguer o novo Plano Estadual da Juventude.
A primeira pedra de toque reside na representatividade. Mato Grosso do Sul, com seus 79 municípios e uma diversidade juvenil que abarca desde a metrópole até comunidades indígenas e ribeirinhas, mal pode ter suas demandas sintetizadas por um grupo de 172 jovens e gestores de apenas sete cidades. A ânsia por uma “construção coletiva” não pode obscurecer o desafio de se atingir uma capilaridade real, uma verdadeira rede de escuta que alcance as periferias geográficas e existenciais. De outro modo, corre-se o risco de confundir a voz de alguns com a totalidade, criando um plano que, na superfície, parece participativo, mas na essência, reproduz a assimetria entre os articulados e os esquecidos.
A velocidade com que se consolidaram 40 propostas em um único dia, embora demonstrando energia, levanta questões sobre a profundidade e a viabilidade. Um plano de governo, para não ficar “no papel”, como bem alertou a secretária Viviane Luiza, exige mais do que boas intenções ou formulações genéricas. Demanda um discernimento político aguçado, um estudo meticuloso da ordem dos bens e a previsão de mecanismos claros para a alocação orçamentária e o monitoramento contínuo. Chesterton, com sua perspicácia que desmascara as abstrações, certamente desconfiaria da pretensão de consolidar a voz de uma geração inteira em quarenta propostas nascidas de um único dia. Ele nos recordaria a humildade diante do real, que impõe o reconhecimento das limitações de qualquer esforço humano em abarcar a complexidade da vida.
O subsecretário Jessé Cruz afirmou que o fórum não é “um espaço para elogios, mas de debate e construção de participação social”. Se é assim, a ausência de vozes críticas ou de pormenores sobre os desafios enfrentados durante o circuito ou no próprio fórum na narrativa oficial, publicada pela comunicação governamental, torna-se um ponto a ser notado. A participação genuína não se valida apenas pela presença ou pelo consenso aparente, mas pela capacidade de incorporar e processar as divergências e as duras realidades. A liberdade ordenada que ensina Leão XIII pressupõe um ambiente onde as associações livres e os corpos intermediários floresçam, e não sejam apenas instrumentos de validação para agendas pré-definidas.
A menção à necessidade de garantir que a política pública de juventude “tenha recursos para acontecer”, feita pela presidente do Conselho Estadual de Juventude, Isabela Nantes, é crucial. Sem esse compromisso concreto e transparente, as mais belas propostas se tornam meros ornamentos burocráticos. A lição de Pio XI sobre a subsidiariedade é aqui lapidar: o Estado deve fortalecer o que está perto, não esmagar os corpos vivos da sociedade. Um plano verdadeiramente justo para a juventude não pode ser apenas um manifesto de intenções, mas um conjunto de ações com contratos de desempenho claros, com responsabilidade e com o devido provisionamento que a vida comum exige. A construção de um futuro para os jovens é um dever compartilhado que, para ser efetivo, precisa de fundamentos mais sólidos que o mero entusiasmo de um dia.
Fonte original: Opinião e Notícia
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.