A nobre aspiração de que o trabalho sirva à plena dignidade da pessoa humana, não o inverso, é um pilar inabalável da Doutrina Social da Igreja. Quando a proposta é reduzir a jornada de labuta, o instinto inicial é celebrar o avanço em direção a um maior equilíbrio entre vida e sustento, abrindo espaço para a família, o ócio fecundo e a qualificação. Contudo, entre o ideal e a concretude da lei, há um desfiladeiro que separa a justa intenção das consequências imprevistas, e é sobre essa ponte de prudência que o debate das PECs de redução da jornada de trabalho no Brasil precisa caminhar com olhos bem abertos.
Os fatos mostram um movimento legítimo. Desde a Constituição de 1988, que reduziu as horas de 48 para 44, até a mobilização recente que viralizou no TikTok, a busca por uma jornada de 36 horas semanais ressoa com o clamor por uma vida que seja “além do trabalho”. O legislador, na figura de senadores como Paulo Paim e deputadas como Erika Hilton e Reginaldo Lopes, acolhe o anseio com PECs que prometem mais tempo livre. A experiência internacional, embora em contextos distintos, como no Reino Unido e na França, oferece exemplos de ajustes. Essa é a face da justiça social que busca a melhoria das condições do trabalhador urbano e rural.
Mas a justiça não opera apenas no plano da intenção; ela exige o discernimento da realidade concreta e de suas implicações para toda a ordem social. É aqui que as preocupações legítimas do empresariado e da sociedade produtiva emergem com força. Reduzir a jornada sem um plano claro e comprovado para a manutenção ou elevação da produtividade por trabalhador representa um custo não trivial. Este custo, se não for compensado por inovações e eficiências, tende a ser repassado ao consumidor, alimentando a inflação, ou, pior, a desestimular a criação de empregos formais, empurrando mais trabalhadores para a informalidade ou resultando em demissões. Pequenas e médias empresas, especialmente, podem encontrar-se à beira do abismo, sem o capital para absorver os aumentos ou investir em automação que compense a perda de horas.
Mais grave ainda, algumas propostas, ao permitirem a flexibilização da regra geral por “acordo individual” sobre “acordo ou convenção coletiva”, repetem a brecha da Reforma Trabalhista de 2017. Isso não é um detalhe técnico, mas uma porta aberta para a chantagem patronal, onde a assimetria de poder entre empregado e empregador pode levar à precarização, e não à dignidade. A ausência de salvaguardas explícitas para os trabalhadores em novas formas de contratação, como os de plataformas digitais, sugere que uma parcela crescente da força de trabalho pode ficar à margem dos benefícios, aprofundando a segmentação. E a inconsistência numérica em uma das PECs – 36 horas semanais em quatro dias de oito horas, que somam apenas 32 – revela uma falta de honestidade intelectual na redação que, se não corrigida, deixará o trabalhador à mercê de interpretações judiciais ou de sobrecarga de trabalho.
A solução para a complexidade da questão não se encontra na radicalização, seja ela ideológica, que promete um paraíso sem custos, seja ela reacionária, que ignora a necessidade de progresso social. A via católica, informada pela prudência tomista, é a da responsabilidade compartilhada e da subsidiariedade. É preciso fortalecer os corpos intermediários – sindicatos laborais e patronais – para que, juntos, possam negociar um caminho que honre o trabalho, valorize o trabalhador com um salário justo e tempo para a família, mas que também assegure a sustentabilidade das empresas e a vitalidade da economia nacional. O verdadeiro avanço não reside apenas em diminuir as horas, mas em garantir que cada hora trabalhada seja mais digna e produtiva, gerando riqueza para todos, e não apenas custos e incertezas.
Portanto, a discussão sobre a redução da jornada precisa ir além do desejo imediato. Deve contemplar um plano de ação robusto que inclua investimentos em qualificação, incentivos à inovação e um arcabouço legal que feche as portas à precarização. A laboriosidade da nação, a temperança no consumo e a justiça na distribuição dos encargos e dos frutos do trabalho são os eixos que sustentarão uma mudança que, de fato, eleve o patamar de vida da classe trabalhadora sem desequilibrar a balança da vida comum.
Não basta legislar para o descanso, é preciso construir as bases para uma prosperidade que possa sustentá-lo com dignidade e segurança para todos.
Fonte original: racismoambiental.net.br
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.