A guinada de um prefeito que abandona o partido pelo qual se elegeu para, em outro, “construir um grupo político próprio” é, à primeira vista, um movimento tático corriqueiro na arena brasileira. Contudo, em Maceió, a mudança de JHC do PL para o PSDB, arquitetada para as eleições de 2026 e em explícito confronto ao grupo de Arthur Lira, revela mais do que simples rearranjo eleitoral. Expõe, antes, uma profunda carência de veracidade no discurso político e uma distorção da responsabilidade para com a administração pública e as instituições partidárias.
Ainda que a tese oficial seja a edificação de um projeto “autônomo”, a realidade dos fatos aponta para uma estratégia de realinhamento oportunista. A fluidez ideológica, que permite a um líder saltar entre legendas com aparente desenvoltura, instrumentaliza o partido como mera plataforma eleitoral. A estrutura partidária, que deveria ser um meio para a consecução de um programa de governo baseado em princípios, torna-se um fim em si: um instrumento a ser conquistado e controlado para a ascensão pessoal e de um círculo restrito de aliados. É a velha estatolatria, que Pio XI já denunciava em sua crítica ao Estado que se torna um fim, transmutada numa “partidolatria” ou, pior, numa “personalismolatria”.
Não se pode ignorar a legítima preocupação com a estabilidade e a convicção ideológica. Quando a lealdade é moldada pela conveniência da ocasião e não por um corpo doutrinário sólido, a política desce ao nível de um xadrez de barganhas, onde os jogadores movem as peças sem qualquer apreço pela consistência do jogo. Mais grave ainda é a tendência de transformar o projeto político em um arranjo familiar explícito, como a repentina projeção da primeira-dama para uma cadeira no Senado. O capital político, que deveria ser um bem público conquistado pelo serviço, torna-se uma herança a ser distribuída entre os da casa, esvaziando o processo democrático e preterindo o mérito.
A Doutrina Social da Igreja sempre insistiu que a família é a sociedade primeira e célula vital da sociedade, mas isso não confere à família do mandatário um direito de primazia sobre os cargos públicos. A ordem dos bens exige que o bem comum, o serviço ao povo e o compromisso com a cidade de Maceió – que elegeu JHC para gerir seus destinos – sobreponham-se a qualquer ambição eleitoral para 2026. A laboriosidade e a responsabilidade de um prefeito não se medem pelo esmero na costura de alianças para o futuro, mas pela dedicação aos desafios imediatos da gestão, que não podem ser secundarizados.
A pretensão de “construir um grupo próprio” merece um crivo rigoroso. Não se trata de negar a dinâmica democrática ou a legítima busca por apoio. A questão é a base sobre a qual se ergue tal “construção”. É ela cimentada em princípios e um programa claro que vise ao bem-estar do estado, ou é meramente um castelo de cartas erguido sobre a areia movediça da conveniência e da ambição? A política não pode ser um teatro de sombras, onde as intenções se mascaram em retóricas de autonomia, enquanto, nos bastidores, o que se movem são apenas as peças de um tabuleiro cujo fim é a manutenção do poder por si mesmo. A verdadeira força política reside na honestidade de propósitos e na clareza de suas propostas, não na perícia em mudar de camisa partidária.
A real vocação da vida pública não é a de ser um trampolim para o poder familiar ou uma arena para contendas pessoais, mas um espaço de serviço desinteressado. O desafio para JHC, e para todos os que se aventuram neste tipo de movimento, é demonstrar que o novo agrupamento nasce de um compromisso programático sólido, e não apenas de um cálculo eleitoral que, ao fim e ao cabo, instrumentaliza a fé do eleitor e a própria instituição partidária. A verdade, no fim das contas, é o critério mais rigoroso da ação política: ela ilumina as intenções e expõe a nua realidade das coisas.
A política, afinal, é a arte de governar o real, não de encenar dramas de bastidor.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.