Inclusão nos JERs Roraima: Do Símbolo à Substância

Os Jogos Escolares de Roraima (JERs/Jerpa) celebram inclusão de paralímpicos e futebol feminino. Mas, o avanço é real? Análise crítica sobre a necessidade de equidade e recursos.

🟢 Análise

Celebra-se, e com justa causa aparente, a 53ª edição dos Jogos Escolares de Roraima, agora expandidos para abraçar, pela primeira vez, os Jogos Escolares Paralímpicos (Jerpa) e o futebol feminino. A notícia, que promete mais de 10.200 competidores em quase vinte modalidades espalhadas por nove sedes, irradia um otimismo contagiante, uma bandeira de progresso hasteada com fervor. Mas o que se faz de uma bandeira quando o terreno sob ela ainda é pantanoso? A mera inclusão, por mais nobre que seja a intenção, não é sinônimo de igualdade, nem a declaração de um novo tempo o garante. De fato, a verdade é muitas vezes mais estranha, e infinitamente mais exigente, que a ficção do avanço instantâneo.

Não se trata de negar o valor da iniciativa, pois a Doutrina Social da Igreja sempre exaltou a dignidade intrínseca da pessoa humana e o imperativo da solidariedade. Reconhecer e fomentar o talento esportivo em jovens, especialmente aqueles que historicamente enfrentaram barreiras de acesso, é um passo na direção do bem comum. A inclusão de atletas paralímpicos e a abertura de espaços para o futebol feminino são, em princípio, atos de caridade na verdade. Contudo, a prudência nos obriga a olhar para além do anúncio festivo. O que está sendo verdadeiramente construído por trás da fachada da novidade? Qual é a substância por trás do símbolo, e qual o peso da responsabilidade que o acompanha?

O problema reside precisamente em confundir o desejo com a realidade, o decreto com a efetivação. Se o Jerpa oferece cinco modalidades enquanto os JERs convencionais chegam a quase vinte, a disparidade salta aos olhos não como um mero detalhe técnico, mas como uma questão de justiça distributiva. Como é possível falar em plena inclusão quando as oportunidades são tão desigualmente postas? A reta razão, que São Tomás de Aquino tanto prezava como guia da ação humana, exige que a autoridade legítima não apenas declare um direito, mas providencie os meios adequados para seu exercício pleno. Do contrário, a “inclusão” pode se tornar uma nova forma de exclusão, um convite sem portas, uma promessa sem alicerces.

A logistical para mobilizar “mais de 10.200 competidores” por nove sedes no interior, além da capital, já seria um desafio hercúleo em condições normais. Com as demandas específicas de acessibilidade universal para atletas paralímpicos — transporte adaptado, alojamento inclusivo, instalações esportivas sem barreiras, equipes de apoio especializadas — o desafio multiplica-se exponenzialmente. E o futebol feminino, décadas marginalizado, não brotará em plenitude sem investimentos específicos em estrutura, formação de técnicos e árbitros, e equipamentos adequados. A subsidiariedade, tão cara à DSI, implica que o apoio deve chegar à base, às escolas e municípios mais remotos, com recursos proporcionais às novas e complexas exigências.

Não basta o “diálogo com gestores”; é preciso orçamento detalhado e explícito para as adaptações, para a capacitação de professores de educação física, para a aquisição de equipamentos especializados. É imperioso que o plano de longo prazo para expandir as modalidades do Jerpa e equiparar as oportunidades seja público, com prazos e metas claras. A mera expectativa numérica de participantes não pode sobrepor-se à garantia de qualidade e equidade das condições para cada um deles. Há uma diferença abissal entre meramente “incluir” e verdadeiramente “integrar”. A primeira pode ser um mero aceno publicitário; a segunda exige o suor do dever, a virtude da perseverança e a paciência da construção.

O risco é grande: que a celebração da “novidade” se esgote em si mesma, tornando-se um fim em vez de um começo. Que a “primeira vez” seja também a última a merecer atenção substancial, e que as gerações futuras vejam nesta inclusão um gesto vazio, não uma mudança estrutural. A verdadeira solidariedade não é um gesto ocasional de benevolência, mas um compromisso permanente com a justiça. E a justiça não se contenta com a mera aparência de um bem, mas exige a sua efetiva concretização, custe o que custar em esforço, recurso e dedicação.

Assim, enquanto aplaudimos a intenção, não podemos deixar de inquirir com a severidade da caridade: esta é uma semente plantada em solo fértil, com a devida água e cuidado, ou apenas uma flor de plástico, efêmera e sem perfume? A grandeza de um programa não se mede pelo número de participantes que se espera, mas pela dignidade com que cada participante, do primeiro ao último, é tratado e apoiado. O desafio, portanto, não é apenas abrir as portas, mas garantir que todos possam de fato atravessá-las, com a certeza de que a promessa de inclusão não é um bilhete de loteria, mas uma garantia de respeito e oportunidade. Pois, como nos lembra a sabedoria eterna, não basta ver o bem, é preciso fazer o bem, e fazê-lo bem.

Fonte original: PORTAL RORAIMA

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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