É notável, quase um paradoxo poético, que o anúncio de uma estrada asfaltada e um aeroporto no Jalapão soe menos como uma promessa de progresso e mais como um presságio, uma nota de réquiem para algo que, por sua própria dificuldade de acesso, permaneceu sagrado. A notícia de que essa joia rara, incrustada no coração do Tocantins, que viu 50 mil almas aventurosas em 2025, será “aberta” a um fluxo de turistas que rivaliza com a massificação de Iguaçu ou Jericoacoara, deveria encher-nos de júbilo. Afinal, não é dever do Estado facilitar o acesso e impulsionar o desenvolvimento econômico de uma região? À primeira vista, sim. Mas o discernimento católico ensina que nem todo “progresso” é um avanço verdadeiro, e que o bem não se mede apenas pela cifra de visitantes ou pelo quilômetro de asfalto.
O impulso humano para aprimorar as condições de vida, a busca por uma maior prosperidade material, é um anseio legítimo e, em si, bom. A Doutrina Social da Igreja, ao falar do desenvolvimento integral, reconhece a importância da infraestrutura para a dignidade da pessoa humana e o acesso aos bens comuns. Se estradas e aeroportos podem tirar comunidades do isolamento, abrir mercados e oferecer novas oportunidades de trabalho, a princípio, são meios válidos. Mateiros, com sua população quilombola, e o Quilombo Mumbuca, berço de uma tradição secular como a do capim dourado, sem dúvida se beneficiariam de um influxo de recursos, permitindo talvez uma melhor educação, saúde e moradia, conquistas que São Tomás de Aquino não hesitaria em qualificar como elementos do bem-estar temporal.
Contudo, é aqui que a reta razão se impõe, alertando-nos contra o reducionismo de um progresso que mede o valor em volume, e não em integridade. Chesterton, em sua sagacidade paradoxal, ensinaria que, ao “facilitar” tudo, corremos o risco de destruir a própria essência daquilo que se desejava desfrutar. O Jalapão não é apenas um conjunto de fervedouros, dunas e cachoeiras cristalinas; é uma experiência, um encontro com a natureza bruta, que exige um esforço, uma entrega, um respeito que a viagem 4×4, o isolamento e o guia atencioso como Lino tão bem simbolizam. Perder esse “quê de excursão off-road” não é apenas mudar um modal de transporte; é descaracterizar a relação que o visitante tem com o lugar, nivelando-o à conveniência de um aeroporto e à planura do asfalto.
O problema emerge quando a lógica do “mais é melhor” atropela os princípios da subsidiariedade e da solidariedade. As comunidades quilombolas, como a de Mumbuca, que por mais de cem anos sustentaram-se com a arte do capim dourado, iniciada por Laurentina e dona Miúda, correm o risco de serem marginalizadas por grandes operadoras ou pela gentrificação. Se o desenvolvimento não é planejado com elas e para elas, mas imposto de cima para baixo, corrompe-se o princípio da subsidiariedade, que exige que as decisões sejam tomadas o mais próximo possível das pessoas afetadas. A facilidade pode trazer poluição, erosão, uma demanda por serviços básicos que a infraestrutura local não consegue sustentar, e a perda da autenticidade cultural em nome de um turismo massificado e homogêneo.
Não se trata de opor progresso à natureza, mas de reconhecer que o verdadeiro desenvolvimento humano é integral, respeitando a dignidade da pessoa e a integridade da criação. A Igreja, em sua Doutrina Social, e especialmente na encíclica Laudato Si’, lembra-nos da urgência de uma ecologia integral, onde o grito da terra e o grito dos pobres são inseparáveis. Abrir o Jalapão para milhões sem um plano robusto de gestão de resíduos, saneamento, limites rigorosos de visitação e um empoderamento real das comunidades locais, é pavimentar o caminho para a sua degradação. É transformar a singularidade em banalidade, a aventura em pacote turístico genérico, e a subsistência digna em competição desleal.
Portanto, a questão não é se o Jalapão deve ou não se desenvolver, mas como se desenvolverá. É imperativo que os projetos de infraestrutura sejam acompanhados por estudos de impacto socioambiental sérios e vinculantes, por políticas que assegurem a distribuição equitativa dos benefícios, por limites de visitação que preservem os frágeis fervedouros e dunas, e por um diálogo franco e respeitoso com as comunidades locais. A sabedoria católica nos ensina que o bem comum não é a soma de interesses individuais, mas as condições sociais que permitem a cada pessoa e grupo atingir sua perfeição integral. Sem isso, o que se vende como oportunidade pode ser a destruição de um patrimônio.
Em vez de idolatrar o mercado ou o Estado como fiadores automáticos do bem, devemos submeter suas ações à luz da virtude e da prudência. O Jalapão nos oferece a chance de um desenvolvimento que seja, de fato, humano e integral. Pois, às vezes, para abrir um caminho para o futuro, é preciso antes de tudo não fechar a porta para o que de mais precioso se tem no presente.
Fonte original: Diario de Cuiabá
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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