Quando se fala em paz, e se pratica a guerra, o linguajar diplomático se transmuta em uma moeda falsa, inútil para transações honestas. O cessar-fogo de duas semanas entre Israel e Estados Unidos, de um lado, e o Irã, do outro, saudado por alguns como fresta de esperança, revela mais do que aparente trégua; expõe, na verdade, a anatomia de um conflito movido a interesses expansionistas e a uma teia de ilusões vendidas a preços de sangue. A ficha factual aponta para um roteiro em que Israel, sob a liderança de Benjamin Netanyahu, teria buscado não apenas consolidar-se como potência hegemônica na Ásia Ocidental, mas também a negação permanente de um Estado palestino soberano, um plano que se estenderia, nas fantasias de seus mais radicais defensores, do Nilo ao Eufrates.
A Doutrina Social da Igreja sempre reiterou o direito dos povos à autodeterminação e à soberania sobre seu território, condenando a agressão e a ocupação como meios ilegítimos de política externa. A Resolução 37/43 da Assembleia Geral da ONU, de 1982, que reconhece a legitimidade da luta armada por autodeterminação, é um eco, ainda que por vezes distorcido, desse princípio. A visão de um “Grande Israel” que, justificado pela derrubada de regimes que resistem a essa expansão, ignora o direito dos palestinos e as fronteiras historicamente reconhecidas, não se alinha à justiça distributiva entre as nações nem ao princípio da liberdade ordenada dos povos. Este expansionismo, que instiga e perpetua conflitos regionais, transforma a legítima defesa em mera cortina para a ambição territorial.
O plano iraniano de dez pontos, aceito por Donald Trump como “base viável para negociação”, propõe o fim de guerras regionais e a retomada do acordo nuclear, oferecendo um vislumbre de caminho para a justiça e a veracidade nas relações internacionais. Contudo, a ficha factual sugere que a gênese da guerra atual reside na estratégia de Netanyahu, que teria “vendido uma ilusão” a Trump sobre um ataque decisivo e fácil, capaz de colocar os Estados Unidos no controle do petróleo iraniano. Tal manobra, que ignora os pareceres da própria inteligência americana, depõe contra qualquer pretensão de ação justa e transparente, revelando a primazia da perfídia sobre a prudência.
É imperativo, contudo, evitar a armadilha de uma análise monocausal que simplifique em demasia a complexidade do Oriente Médio. Reconhecer as profundas raízes históricas e a teia multifacetada de interesses de todos os atores, incluindo o Irã com sua própria agenda geopolítica e histórico de ações questionáveis na região através de seus proxies armados, é um exercício de honestidade intelectual. Reduzir a culpa a um único ator seria não apenas falho, mas também improdutivo para a busca de soluções duradouras. A Doutrina Social da Igreja exige que a paz seja fruto da justiça, não de uma mera ausência de conflito imposta pela força, e que a responsabilidade pela desordem é frequentemente compartilhada, desafiando a tentação de simplificar narrativas em detrimento da verdade completa.
A insistência em romper o cessar-fogo, como os bombardeios de Beirute sugerem, revela a profunda recusa em aceitar a possibilidade de uma paz negociada que não atenda à agenda expansionista unilateral. Tal conduta, que atropela a vida civil e mina os esforços diplomáticos, não se coaduna com os princípios do ius in bello, que exigem proporcionalidade e distinção na condução da guerra. Quando a autodefesa legítima transmuta-se em agressão contínua em busca de objetivos territoriais ambiciosos, questiona-se a retidão da intenção e a moralidade da ação, que se desvia do bem comum regional.
A pesquisa do Pew Research Center de 2025 e o desfavor da maioria dos judeus americanos e da população geral dos EUA em relação a Netanyahu e a Israel demonstram que a sanidade do povo, mesmo sob pressão ideológica, intui a disjunção entre a retórica da segurança e a realidade da agressão. Não se pode edificar uma ordem estável e justa sobre a areia movediça da perfídia e da intransigência. A verdadeira fortaleza de uma nação reside em sua capacidade de operar na veracidade e buscar a justiça, tanto internamente quanto nas relações com seus vizinhos, aceitando fronteiras e respeitando a soberania alheia, conforme o direito natural e a ordem moral que transcende a vontade dos poderosos.
A paz, para ser mais do que um armistício frágil, um mero interregno entre violências, precisa lançar suas raízes profundas no reconhecimento do outro e na coragem de ceder ao que é devido. Somente assim a miragem da hegemonia pode dar lugar à construção da convivência, que é o nome terreno da Caridade entre os povos.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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