Quando um edifício se ergue sobre as ruínas de uma casa que ele próprio derrubou, a primeira questão que se impõe é: quais são os novos alicerces? A Revolução Islâmica de 1979 prometeu um Irã redimido do patrimonialismo monárquico, ancorado na legitimidade da “guarda do jurista”, o Velayat-e Faqih, que pressupõe erudição e mérito como bases da liderança. Agora, no calor de ataques externos e com a morte do Aiatolá Ali Khamenei, a eleição de seu filho, Mojtaba Khamenei, pela Assembleia de Peritos em uma sessão emergencial e virtual, levanta mais do que meras dúvidas: acende um alerta sobre a própria alma da república.
Não se trata de questionar a legalidade formal do ato — a Assembleia de Peritos tem a prerrogativa constitucional de eleger o líder supremo. O que se põe em xeque é a justiça material e a veracidade dos princípios que deveriam reger tal processo. Mojtaba, embora clérigo, carece da experiência em cargos públicos e da projeção que se esperaria de um sucessor à autoridade máxima, tal como a Constituição iraniana sugere ao exigir “experiência administrativa”. A ausência de um debate transparente, a celeridade da escolha, e o formato virtual em um momento tão crítico, pintam um quadro de conveniência política que mal disfarça uma sucessão quase dinástica.
É legítima a preocupação de que este movimento subverta a essência antimonárquica da Revolução de 1979. Um regime que nasceu da rejeição a um xá percebido como autoritário e alinhado a interesses estrangeiros, e que prometeu uma ordem baseada no mérito religioso e na soberania popular, não pode flertar com a lógica de sangue sem minar sua própria razão de ser. A crítica à estatolatria e ao poder concentrado que ignora os corpos intermediários da sociedade, tão presente na Doutrina Social da Igreja desde Pio XI, adverte contra a tentação de reduzir a autoridade a um feudo familiar. A “ordem profissional” dos clérigos, que deveria escolher o mais apto e virtuoso, corre o risco de ser instrumentalizada.
O regime iraniano pode argumentar que a eleição de Mojtaba foi uma resposta pragmática para garantir a continuidade institucional em meio a uma crise, um movimento de resiliência frente a ataques de Estados Unidos e Israel. Contudo, a estabilidade duradoura de um Estado não se constrói apenas pela celeridade de uma transição, mas pela solidez dos princípios que a norteiam. A Assembleia de Peritos, ao validar um processo tão opaco e um perfil de líder sem a devida experiência pública, compromete a percepção de sua própria autonomia e, por extensão, a legitimidade da doutrina do Velayat-e Faqih. Ela transforma o “guardião do jurista” em um guardião da linhagem, e isso é um perigo intrínseco.
Chesterton, com seu gênio para o paradoxo, riria da ironia trágica de um movimento revolucionário que, ao fugir da monarquia, abraça uma forma dela. Há uma loucura na lógica de quem proclama liberdade contra o poder herdado, para depois, sob o manto da “república”, perpetuar uma sucessão de pai para filho. A sanidade política exige que os meios estejam à altura dos fins, e que a busca pela estabilidade não se confunda com a acomodação de interesses familiares, especialmente em um sistema que se arroga uma autoridade religiosa e moral sobre o povo.
A decisão pela continuidade, assim, não pode ser um pretexto para o patrimonialismo. O regime, ao escolher um caminho que flerta perigosamente com a lógica que um dia repudiou, não apenas abre flancos para a dissidência interna, mas descredita a própria base moral e teológica de sua autoridade. A legitimidade da governança, especialmente aquela que se arroga o manto da santidade, não pode ser tecida com os fios da conveniência familiar, mas com a tessitura inquebrantável do mérito e da justiça.
Fonte original: Poder360
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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