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Irã: Sucessão de Mojtaba Khamenei Abalada por Ilegitimidade

A sucessão de Mojtaba Khamenei ao Líder Supremo do Irã é marcada pela ilegitimidade. A Guarda Revolucionária impôs a escolha, subvertendo a lei e militarizando a teocracia iraniana.

🟢 Análise

O tecido de uma nação, ainda que costurado por fios de uma revolução, se mantém íntegro pela trama da lei e da legítima sucessão. No Irã, essa trama foi rasgada, não por um cataclismo externo, mas pela mão que se apoderou do tear. A ascensão de Mojtaba Khamenei ao posto de Líder Supremo, após a morte abrupta do Aiatolá Ali Khamenei em meio a ataques aéreos, não é apenas um capítulo na história política iraniana; é uma profunda ferida na estrutura de autoridade, justiça e veracidade que, em qualquer sociedade, deveria sustentar a ordem e a vida comum.

Os fatos são implacáveis em sua cronologia. A morte do Líder, o bombardeio à sede da Assembleia de Especialistas e, no mesmo dia, uma reunião virtual secreta para iniciar a sucessão. Mojtaba Khamenei, com o apoio irrestrito da Guarda Revolucionária, obteve maioria na primeira votação. O anúncio foi cancelado, com alegações de risco e ameaças externas, antes que outro bombardeio israelense reduzisse a escombros o complexo do líder em Teerã. Em meio a este cenário de guerra e incerteza, a Assembleia, pressionada e aparentemente desprovida de sua autonomia, validou o voto virtual e, em 8 de março, com 59 dos 88 votos, Mojtaba foi proclamado Líder Supremo, sem, até o momento, ter sido visto em público.

A preocupação legítima que emerge desta sucessão turbulenta transcende a mera disputa política entre facções. Trata-se da subversão dos preceitos constitucionais e religiosos da própria República Islâmica. A Assembleia de Especialistas, constitucionalmente encarregada de nomear o líder supremo de forma presencial, viu-se coagida a aceitar uma votação virtual, sob o manto de “protocolos de tempo de guerra”. Mais grave ainda, o testamento do Aiatolá Ali Khamenei, que supostamente proibia a sucessão hereditária, foi simplesmente posto de lado. Não é uma mera “guerra de sucessão” entre indivíduos; é a transformação de uma teocracia clerical em uma autocracia militarizada, onde a Guarda Revolucionária subordina a legitimidade religiosa e jurídica à sua própria agenda de poder, desfigurando os princípios fundacionais de 1979.

São Tomás de Aquino, ao discorrer sobre a natureza da lei e da autoridade, ensina que a lei, para ser justa, deve ordenar-se ao bem comum e provir da autoridade legítima, devidamente constituída e exercida. Quando a forma da lei é deturpada, e a vontade do legislador substituída pela força de uma facção, o que se institui não é ordem, mas arbítrio. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, alertava contra a elevação do poder temporal, seja ele estatal ou militar, acima da lei moral e divina. No Irã, presenciamos uma “militarolatria”, onde a força das armas e a pressão política da Guarda Revolucionária esmagaram a independência da Assembleia e a vontade expressa do líder falecido. A justiça, aqui, foi claramente preterida em favor da consolidação de um poder cujas bases se mostram, desde já, abaladas por sua própria ilegitimidade.

Chesterton, com sua perspicácia para os paradoxos que corroem a sanidade do mundo moderno, talvez visse aqui a caricatura de uma teocracia que, em seu afã de consolidar poder, desfigura a própria fé que a sustenta. A “recusa educada” do poder, um rito da humildade xiita, transformou-se em cortina de fumaça para um assalto ao trono, onde a veracidade foi sacrificada no altar da conveniência. O uso dos ataques externos como justificação para acelerar e manipular a sucessão é um estratagema que expõe a loucura lógica de um regime que, para se manter, precisa abdicar de sua própria identidade. Não se pode invocar a fé e a tradição para justificar um processo que, em sua essência, as contradiz.

A ausência pública de Mojtaba Khamenei, somada à submissão dos ritos sucessórios e do testamento do predecessor à vontade da Guarda Revolucionária, prenuncia um governo cuja autoridade será constantemente questionada. Não é um povo, mas uma massa coagida que aceita um líder que não emerge da ordem legítima, mas da imposição. Essa manobra política, revestida de urgência de guerra, desestabiliza a coesão interna do Irã, marginaliza as vozes moderadas e estabelece um precedente perigoso para as futuras transições de poder. A fé, quando domesticada para servir à ambição de poder, perde sua força de verdade e se torna mero instrumento.

Quando a fé se submete à força, e a lei à conveniência, o que resta não é uma ordem, mas um simulacro que, cedo ou tarde, ruirá sob o peso de sua própria ilegitimidade.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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