Um país que ergue a bandeira da resistência contra impérios distantes, por vezes, esquece que a tirania mais próxima é aquela que se impõe sobre sua própria gente. A análise da política externa iraniana, tão frequentemente enquadrada na lente do anti-imperialismo, embora contenha um fundo de verdade histórica e geopolítica, corre o risco de ofuscar uma realidade interna complexa e dolorosa. Houve, sem dúvida, momentos de intervenção estrangeira nefasta, como o golpe de 1953 que depôs Mossadegh e entregou o poder ao Xá Reza Pahlavi. A Revolução Islâmica de 1979 foi, em parte, uma resposta a essa ingerência e à imposição de modelos ocidentais. Mas a memória dessa violação à soberania nacional não pode ser um salvo-conduto para o cerceamento da liberdade e da dignidade dos cidadãos iranianos.
A voz que clama por soberania contra as potências externas deve, antes de tudo, ouvir os clamores internos de seu próprio povo. No Irã, a pesquisadora Camila Hirt Munareto aponta a existência de movimentos sociais diversos – estudantis, de mulheres, reformistas – que atuam desde os protestos de 1999, passando pelo Movimento Verde de 2009, até o recente “Mulher, Vida e Liberdade” de 2022 e as manifestações de 2026. A heterogeneidade desses grupos é um fato, mas atribuir a ela a principal dificuldade em disputar o poder político é subestimar a mão pesada da repressão estatal. A Doutrina Social da Igreja, particularmente através dos ensinamentos de Pio XII sobre o “povo versus massa”, lembra-nos que a verdadeira coesão de uma nação se funda na participação e no respeito às diferenças legítimas, e não na subjugação de cada voz a uma narrativa única e monolítica. Um Estado que trata seus cidadãos como massa a ser mobilizada para um fim ideológico, negando-lhes a pluralidade inerente a um povo, caminha para a estatolatria que Pio XI tão veementemente condenou.
A preocupação legítima com a ingerência estrangeira, que de fato pode desestabilizar nações e violar a ordem internacional, não pode se converter em um manto para encobrir a ausência de justiça interna. O regime iraniano, ao instrumentalizar o discurso anti-imperialista, frequentemente tenta deslegitimar qualquer demanda interna por mudança como “agência estrangeira” ou “intoxicação ocidental”. Essa estratégia retórica, porém, não anula as aspirações por maior liberdade, dignidade e participação política que emanam da própria sociedade. São demandas por direitos civis e liberdades individuais que não deveriam ser condicionadas ou instrumentalizadas pela geopolítica. A honestidade na comunicação pública exige que o Estado se posicione com veracidade, tanto em relação às ameaças externas quanto às legítimas aspirações de seus cidadãos, sem a conveniente demonização de vozes dissidentes.
Assim, a “política de resistência iraniana”, se por um lado busca defender a soberania nacional contra o expansionismo e a interferência, por outro lado se vê em uma tensão insustentável quando essa mesma “resistência” é usada como justificativa para o controle e a repressão de movimentos sociais. O direito de um país à autodeterminação não se traduz no direito de seu governo oprimir seus cidadãos. A verdadeira grandeza de um projeto civilizacional se manifesta na capacidade de defender a nação tanto de inimigos externos quanto da tirania interna, garantindo uma ordem justa que floresça desde as comunidades locais e o trabalho educativo, até as esferas mais amplas da vida pública.
O discernimento político, portanto, exige que se distinga a legítima autodefesa de uma nação da instrumentalização de tal defesa para a perpetuação de um regime autoritário. A invocação da ameaça externa, embora por vezes real, não deve servir como desculpa para o silenciamento da dissidência ou para a violação dos direitos fundamentais. A comunidade internacional, por sua vez, deve condenar a agressão e a interferência indevida, mas jamais pode ignorar o custo humano da repressão interna, sob pena de convalidar o autoritarismo em nome de uma geopolítica simplista. A justiça, afinal, é indivisível: ela deve ser buscada tanto na arena das relações entre os povos quanto na relação entre o governo e sua própria gente.
A verdadeira soberania se mede não apenas pela capacidade de repelir ameaças externas, mas pela coragem de defender a dignidade e a liberdade daqueles que vivem sob o seu teto.
Fonte original: racismoambiental.net.br
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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