A imagem de um regime inabalável, que regenera suas cabeças como a Hidra mitológica, parece sedutora aos estrategistas, tanto aos que o admiram quanto aos que anseiam por seu fim. Na superfície, a República Islâmica do Irã, erguida sobre as ruínas de uma monarquia em 1979 e forjada em guerras e sanções, exibe uma solidez institucional impressionante. O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), com suas ramificações militares, políticas e econômicas, e o Conselho dos Guardiões, guardião da ideologia e filtro de toda representação, formam uma espinha dorsal de aço que, à primeira vista, resiste a qualquer ataque. A supressão brutal de protestos, o uso de tecnologias de vigilância e a própria cultura de martírio são citados como prova de uma resiliência que faria jus à descrição de uma “poliditadura”.
Contudo, a verdadeira força de um corpo político não se mede apenas pela dureza de sua armadura externa ou pela eficiência de sua repressão. A morte do Líder Supremo Ali Khamenei, seguida pela nomeação apressada de seu filho Mojtaba, revela as fissuras sob a superfície polida. A autoridade de Khamenei não era meramente burocrática; era forjada em décadas de participação revolucionária e um carisma religioso que seu sucessor dinástico, por mais bem posicionado, não possui por herança. Uma república, nascida da negação veemente da monarquia, não pode se dar ao luxo de mimetizar a sucessão real sem pagar um preço altíssimo em legitimidade, tanto entre seu clero quanto junto ao povo.
É aqui que a doutrina católica da subsidiariedade oferece uma lente crucial. Um regime que esmaga os corpos intermediários, que asfixia a família como sociedade primária e que centraliza todo o poder e toda a verdade na figura de um “Líder”, mesmo que sustentado por uma ideologia religiosa, degenera em estatolatria. O que se vê no Irã não é a unidade orgânica de um povo, mas a massificação forçada de indivíduos sob um controle férreo, conforme Pio XII advertia sobre a distinção entre povo e massa. A aparente solidez se apoia na supressão da liberdade e da justiça, elementos intrínsecos à dignidade da pessoa humana e a uma ordem política reta.
A profunda erosão econômica causada pelas sanções ocidentais, a qual se soma à contínua e brutal repressão — que já custou a vida de milhares de iranianos em protestos recentes —, não é um sinal de resiliência inabalável, mas de uma panela de pressão. A própria brutalidade é, muitas vezes, o último recurso de quem sente o chão tremer. O argumento de que “cortar uma cabeça” apenas fará com que “outras cresçam” ignora que a qualidade da nova “cabeça” pode ser diferente, e que a lealdade, que antes era inquestionável, pode ser corroída pela percepção de nepotismo e pela ausência de uma autoridade genuinamente meritória ou carismática.
Nesse cenário complexo, a tentação por uma intervenção externa se apresenta como uma “solução” sedutora, mas perigosa. A história ensina que a desestabilização provocada por forças alheias, muitas vezes bem-intencionadas em seu desejo por “mudança de regime”, pode resultar em um vazio de poder ainda mais caótico ou, paradoxalmente, em um fortalecimento do núcleo duro do regime, que se une contra um inimigo comum. A sanidade, como diria Chesterton, consiste em ver o óbvio: a lógica que propõe a violência externa como panaceia para regimes autoritários, muitas vezes, produz o oposto do que promete, consolidando a tirania em vez de libertar.
O verdadeiro caminho para a mudança, ainda que árduo e imprevisível, está na reconstrução das bases da justiça e da veracidade dentro da sociedade iraniana. Não se trata de esperar passivamente, mas de reconhecer que a força bruta, por mais eficiente no curto prazo, não pode sustentar indefinidamente uma ordem que nega a verdade sobre o homem e sobre a sociedade. A esperança para o Irã não reside na fragilidade de seus inimigos, mas na vitalidade de sua própria população, que, apesar das “milhares de mortes” e da repressão implacável, continua a buscar uma ordem justa.
Um regime que se autodeclara inabalável, mas que para se manter de pé precisa sufocar a alma de seu povo e a justiça em suas ruas, não é robusto; é uma fortaleza cujas fundações já cedem, aguardando não a espada, mas o peso da própria injustiça.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.