A diplomacia, quando cede lugar ao ruído, e a verdade se curva à conveniência dos discursos apocalípticos, transforma a complexidade de um conflito em um nó górdio de narrativas inconciliáveis. O alerta do economista Jeffrey Sachs sobre a escalada rumo a uma guerra nuclear no Oriente Médio, com o Irã no centro, é um grito que não pode ser ignorado. A perspectiva de uma “calamidade global”, tecida por ações como o abandono unilateral do acordo nuclear de 2015 por Donald Trump e a ofensiva de Benjamin Netanyahu, pinta um quadro de imenso perigo que a reta razão moral não pode desconsiderar. A denúncia da agressão armada e ilegal contra o Irã, bem como a necessidade de se buscar um Estado da Palestina nas fronteiras de 1967, são elementos de justiça que ressoam na consciência de qualquer homem de boa vontade.
Contudo, a busca pela paz exige mais do que um diagnóstico apressado de culpados, ainda que a gravidade da situação o exija. A história da região é um tecido intrincado, e a teia de relações de poder não se resume a um roteiro de agressão e reação simplificado. Há preocupações legítimas que a voz de Sachs, por vezes, silencia em sua análise unilateral: a segurança de Israel frente a grupos militantes que, com apoio iraniano, clamam abertamente por sua destruição; o histórico do programa nuclear de Teerã e a persistente desconfiança internacional sobre suas intenções, à luz de seu avanço no enriquecimento de urânio; e as inquietações dos países do Golfo com a projeção de poder do Irã, que ameaça sua soberania e estabilidade.
A retidão moral impõe que não se trate a complexidade como pretexto para a inação, nem que se reduza a tragédia a uma cartilha de vilões e heróis pré-fabricados. A verdade é um bem que se deve a todos, e ela é multifacetada. A Doutrina Social da Igreja, ao falar do povo versus a massa, adverte contra a manipulação das narrativas que transformam cidadãos em meros receptores de propaganda. A justiça nas relações internacionais exige que se reconheçam os direitos e deveres de todos os atores. Não é apenas a paz que está em jogo, mas a própria ordem moral que rege a comunidade de nações, fundada na liberdade ordenada e na verdade. O abandono de acordos internacionais sem justificação robusta e a busca unilateral de hegemonia não são caminhos para a estabilidade; tampouco o é o financiamento de grupos que buscam a subversão da ordem e a destruição de outros Estados.
A afirmação de que Israel “criou nossa crise econômica global” é uma simplificação perigosa, que desvia o olhar dos múltiplos e complexos fatores econômicos e geopolíticos que afligem o mundo. Da mesma forma, questiona-se a credibilidade das declarações iranianas sobre não desejar armas nucleares, à luz de seu histórico e de suas ações de enriquecimento que ultrapassam os limites de uso civil. O desarmamento de grupos como Hamas e Hezbollah, proposto por Sachs, é um objetivo essencial para a paz, mas sua consecução exige o enfrentamento das raízes políticas, ideológicas e de financiamento que os sustentam, e não apenas uma imposição de fora. Como Chesterton observaria em seu paradoxo, a solução para um problema complexo raramente é a mais simples e óbvia; muitas vezes, a simplificação excessiva é a mãe de novos e mais intrincados dilemas.
O eixo doutrinário de Pio XII, que clama por uma ordem moral pública e condena a massificação que anula a agência individual e nacional, nos impulsiona a discernir entre a propaganda unilateral e a busca diligente pela verdade. A paz duradoura para o Oriente Médio, e de fato para o mundo, não se ergue sobre a abdicação de soberanias ou a imposição de uma única visão, mas sobre o respeito mútuo da liberdade ordenada, a honestidade no diálogo e a busca de uma justiça que contemple os direitos de todos: a existência segura de Israel, a autodeterminação de um Estado Palestino nas fronteiras de 1967, e o direito do Irã e de seus vizinhos à segurança e ao desenvolvimento sem ameaças nucleares ou agressões externas que ignorem o direito internacional.
O futuro da região, e a sombra de um inverno nuclear que paira sobre todos nós, dependerá da coragem de abraçar a verdade plena e multifacetada, e da vontade de construir uma justiça que não se contente com vitórias parciais, mas aspire à concórdia genuína entre os povos.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.