Quem julga uma guerra pela mera permanência de um regime político, ou pela capacidade de impor custos estratégicos a um adversário, ignora o crime que se comete contra a alma e o corpo de um povo. A névoa espessa dos bombardeios que hoje sufoca o Irã faz mais do que obscurecer paisagens; ela avilta a verdade e vilipendia a justiça, tornando impossível qualquer celebração de “vitória” ou “derrota” que não seja uma desfaçatez moral.
Os ecos dos ataques aéreos são mais do que ruídos distantes. Milhões de pessoas foram deslocadas, centenas morreram, e em meio a estatísticas frias, há a tragédia pungente de escolas de meninas atingidas e crianças silenciadas para sempre. Israel, com seu “manual” de bombardeio que não se importa com o dano colateral no Líbano ou em Gaza, e os EUA, com a “Doutrina Donroe” que prometia uma intervenção “fácil” à moda Venezuela ou Síria, são corresponsáveis por esta carnificina. Sob a pressão externa, o regime iraniano encontra um pretexto covarde para sufocar a voz dos sindicatos, estudantes e mulheres que, antes da guerra, já lutavam por um mínimo de dignidade e contra os códigos de vestimenta opressivos.
Dizer que a República Islâmica “venceu” por não ter sido derrubada pela maior superpotência do mundo é um reducionismo perigoso. Que “vitória” pode haver quando a economia está à beira do colapso, a população sofre com escassez de eletricidade e água, e o país parece mais dividido do que nunca, à beira de um conflito civil? A mera sobrevivência de um regime tirânico, ao custo de tanto sangue e miséria para seu próprio povo, é uma “vitória” pírrica, que esconde uma derrota moral e social. Chesterton, com sua perspicácia para desmascarar a loucura lógica das ideologias, certamente notaria a ironia cruel de uma “vitória” construída sobre a ruína de vidas e o esfacelamento de uma nação.
O professor Afshin Matin-Asgari, ele mesmo um ex-revolucionário tornado crítico do regime, alerta para uma verdade incômoda: o Irã não é a Venezuela. Sua complexidade interna, com facções reformistas purgadas e uma oposição dissidente que anseia por uma transição gradual, não pode ser reduzida à dicotomia simplista de opressores e libertadores externos. A guerra, ao invés de catalisar a mudança, pode atrasá-la, fornecendo ao regime a narrativa nacionalista de “invasão” para justificar ainda mais repressão e consolidar seu poder de ferro, ainda que sobre escombros. Pio XII, em sua distinção entre povo e massa, recordaria que a verdadeira solidez de uma nação não reside na coação de uma massa informe por um poder centralizado, mas na vitalidade e liberdade de um povo organizado em corpos intermediários.
A ideia de que “o mundo inteiro é contra esta guerra” é um exagero retórico que serve mais à polarização do que à veracidade. A realidade geopolítica é mais matizada, e as motivações, embora frequentemente tingidas de egoísmo, não podem ser reduzidas a uma mera “fúria imperialista”. No entanto, a irresponsabilidade de potências que bombardeiam sem um plano claro para o caos que se segue, e que distorcem o sentido da segurança nacional para justificar a matança indiscriminada de inocentes, é uma grave violação da justiça e da ordem moral. A dignidade da pessoa humana não é moeda de troca geopolítica, nem pretexto para a stasis de regimes tirânicos, nem combustível para a máquina de guerra externa.
A verdadeira ordem não brota do caos imposto por bombas e retóricas infladas, mas da semente da justiça pacientemente cultivada no reconhecimento da dignidade inalienável de cada pessoa. A paz que vale a pena não é a ausência de guerra a qualquer custo, mas a paz justa, que nasce da verdade e do respeito ao inabalável direito dos povos a governar-se, livre de tiranias internas e interferências externas.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.