A lente da razão, que deveria ser um instrumento límpido para discernir a verdade na complexa cena internacional, muitas vezes se encontra embaçada. Em momentos de guerra, quando a fumaça dos conflitos ascende para confundir as mentes, a capacidade de julgamento se torna um bem escasso. É o que se observa na recente e trágica eclosão do confronto entre Estados Unidos e Irã, onde certos setores da esquerda brasileira, ao invés de clareza, optam por um nevoeiro moral conveniente, negando a face tirânica de um regime em nome de uma pátina anti-imperialista.
Não há dúvida de que a agressão externa, a intervenção militar unilateral e a instrumentalização da dor humana para justificar agendas geopolíticas devem ser veementemente condenadas. A diplomacia brasileira, ao buscar o multilateralismo e a paz, como fez o governo Lula e tentou em mediações passadas, aponta para um caminho de justiça entre as nações. Há uma legítima indignação contra o “duplo padrão” ocidental, que por vezes silencia diante de autocracias aliadas enquanto vocifera contra regimes adversários. E, claro, a defesa da soberania e da autodeterminação dos povos é um pilar da justiça internacional. O próprio PCO e o PSOL, ainda que com matizes distintas, apontam para essas preocupações, com Ivan Valente mencionando a hipocrisia ocidental em relação à Arábia Saudita, e Rui Costa Pimenta, do PCO, defendendo o direito de autodefesa do Irã.
Contudo, a legítima crítica ao imperialismo ou ao sionismo não pode servir de véu para a opressão interna. Quando a nota de um movimento social como o MST equipara ‘imperialistas e sionistas’ aos crimes de Jeffrey Epstein, ou quando se silencia sobre a perseguição de opositores, a opressão de mulheres e a pena de morte para homossexuais no Irã, o que se revela é uma lamentável falha de veracidade e fortaleza moral. O regime iraniano é, de fato, uma teocracia, onde um clero xiita governa com mão de ferro desde 1979, após a queda do Xá Reza Pahlavi. Sua repressão interna, com milhares de mortos e investigados, como apontam a HRANA e mesmo a admissão iraniana de 3 mil “terroristas”, não pode ser relativizada ou justificada por tensões geopolíticas externas.
Essa postura, que Leonardo Avritzer bem descreve como uma visão dicotômica de “imperialismo versus não imperialismo”, revela uma cegueira ideológica. A soberania de um Estado não é absoluta quando devora a dignidade de seu próprio povo. Pio XII alertava sobre a diferença entre um “povo” — um organismo vivo, com suas liberdades e tradições, sujeito a uma ordem moral pública — e uma “massa” — inerte, manipulada por um poder que lhe nega a participação real e a liberdade ordenada. Um governo que esmaga os direitos mais fundamentais de seus cidadãos, mesmo sob o pretexto de defesa nacional, transforma o povo em massa silenciada. Não há anti-imperialismo que justifique a supressão da liberdade ordenada, princípio caro à Doutrina Social da Igreja desde Leão XIII.
É preciso, portanto, a coragem da fortaleza para não vacilar no julgamento moral, e a humildade de reconhecer que nenhuma bandeira ideológica — seja ela de esquerda, direita ou centro — pode escusar a injustiça fundamental. Defender a soberania de um país não significa endossar a tirania de um regime. A soberania pertence ao povo, não aos seus opressores. O respeito à autodeterminação, invocado por Ana Prestes do PC do B, não pode ignorar que a autodeterminação também é violada quando o próprio regime interno impede que seu povo arbitre o futuro em liberdade.
O Brasil, em sua busca por um lugar de mediador e construtor da paz, não pode ceder à tentação de uma análise seletiva da verdade. Se há injustiças cometidas por potências ocidentais, elas devem ser denunciadas com firmeza. Mas se há injustiças brutais cometidas por regimes que se apresentam como “resistência”, estas também clamam por voz. A caridade política, que tudo abrange e a todos busca, exige que não se negue a verdade ao mais fraco nem se desculpe o opressor, em nome de qualquer cálculo geopolítico. A grandeza de uma nação se mede pela sua capacidade de ver o rosto de Cristo no perseguido, esteja ele sob qual bandeira estiver.
A verdadeira solidariedade não veste a carapuça da ideologia nem se silencia diante do grito dos oprimidos. Ela insiste na verdade e na justiça para todos, para que a dignidade humana não seja moeda de troca no grande tabuleiro do mundo.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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