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Irã 2025: Bombardeios e a Tensão entre Opressão Interna e Externa

Bombardeios em 2025 no Irã: a análise explora como a ação externa e a opressão do regime teocrático minam a transição democrática. A justiça exige responsabilidade de todos os lados.

🟢 Análise

A bomba que destrói um hospital infantil ou um depósito de combustível não é apenas uma máquina de guerra; é também um semeador de cinzas, que fecunda o solo ingrato de uma memória histórica e cultural com ressentimento e desconfiança. É um fato amargo que, em junho de 2025, bombardeios israelenses e americanos contra o Irã se somaram à já complexa e frágil balança de poder no Oriente Médio, exacerbando sofrimentos e prometendo uma colheita futura de inimizade duradoura. A análise de Valentine Moghadam, socióloga iraniana, acentua essa devastação: a ofensiva militar estrangeira não apenas causa mortes e destrói infraestrutura vital, mas mina qualquer admiração remanescente pela cultura ocidental entre a juventude iraniana, antes engajada em protestos por liberdade, fortalecendo a visão de seus pais sobre o imperialismo americano.

Moghadam, em sua aguda observação, destaca o caráter “militarista masculinista” dessas ações, que negligenciam a saúde e os direitos de mulheres e crianças, transformando escolas e hospitais em alvos. Ela argumenta que a permissão para mulheres e meninas aparecerem em público sem hijab, uma concessão após o protesto “Mulher, Vida, Liberdade”, e a eleição do reformista Masoud Pezeshkian em 2024, indicavam uma abertura para uma transição mais pacífica e democrática, prontamente sabotada pela intervenção externa. Em sua visão, há uma determinação em Washington e Tel Aviv para aniquilar qualquer perspectiva de mudança interna, movida por interesses em recursos e na derrubada do regime, em vez de um genuíno apoio à população.

Contudo, a verdade, no intrincado labirinto da geopolítica, raramente se manifesta em monocromia. Embora os custos humanos de qualquer conflito sejam uma chaga moral inegável, a interpretação que atribui a responsabilidade quase exclusiva da inviabilidade de uma transição democrática interna à ação externa incorre num perigoso reducionismo. O regime iraniano, em sua estrutura teocrática e autoritária, possui agência própria. Sua recusa em ceder poder, a repressão implacável a dissidentes, o avanço de um programa nuclear e o apoio a proxies desestabilizadores na região são, por si só, fatores que alimentam a desconfiança e provocam reações internacionais. A Doutrina Social da Igreja, que condena a estatolatria e a tirania em todas as suas formas, lembra-nos que a soberania estatal não é uma licença para oprimir o próprio povo ou ameaçar a paz dos vizinhos.

Não basta denunciar a força externa sem confrontar a natureza interna da opressão. Pio XI, em suas encíclicas, advertiu sobre os perigos da centralização excessiva e da supressão dos corpos intermediários – das famílias às associações profissionais – em favor de um Estado onipotente. No Irã, essa centralização, que esmaga a iniciativa da sociedade civil, é uma força mais fundamental na supressão da liberdade do que a reação de potências estrangeiras, por mais desastrosa que essa reação possa ser. Reduzir as motivações complexas de atores como Israel e os EUA a meros “expansionismo” ou “militarismo masculinista” ignora as preocupações legítimas de segurança que alimentam suas políticas, ainda que tais políticas se revelem imprudentes ou moralmente questionáveis em suas execuções.

É uma visão excessivamente otimista sugerir que uma transição pacífica para um governo secular e democrático era “totalmente possível” no Irã antes dos bombardeios, como se o regime teocrático estivesse à beira de ceder voluntariamente o controle. A história dos regimes autoritários demonstra que a verdadeira mudança em direção à justiça e à dignidade da pessoa humana raramente advém de concessões graciosas, mas de pressões internas e externas que se articulam de modo imprevisível. O ato de permitir mulheres sem hijab, por exemplo, pode ser lido como uma concessão tática para aliviar a pressão, e não como um sinal de uma genuína conversão democrática. Desqualificar vozes da diáspora iraniana que defendem a ação externa como meros “delírios monarquistas” é silenciar uma experiência de sofrimento e desesperança que, para eles, talvez veja na intervenção a última e única esperança de liberdade.

A justiça exige que se reconheça a complexa teia de responsabilidades. A guerra é um mal intrínseco que gera sofrimento inaceitável, e os bombardeios de 2025 são uma mancha na busca pela paz. Contudo, essa condenação não pode servir de álibi para a intransigência de um regime que historicamente reprimiu seu povo e desestabilizou a região. A frustração das esperanças de uma juventude por vias pacíficas não se deve apenas à brutalidade de fora, mas também à cegueira e à crueldade de dentro.

Uma paz duradoura para o povo iraniano, e para o Oriente Médio, só pode ser construída sobre a base sólida da justiça, que exige responsabilidade de todos os atores. A dignidade da pessoa humana não tolera a opressão interna, nem as soluções externas que desconsideram o custo humano e minam a possibilidade de uma ordem social mais justa.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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