O anúncio de um pacote de mais de R$ 39 milhões em investimentos para a saúde de Camaçari, com UPAs, Centros de Reabilitação e Unidades Básicas, ressoa como um clarim de esperança no deserto da carência pública. A promessa de mais leitos, mais salas, mais edifícios, acende no coração do cidadão a expectativa de um cuidado mais próximo e eficaz. Mas o polemista, antes de aplaudir a cifra e o concreto, tem o dever de inquirir: será que a virtude da generosidade estatal se mede pela soma anunciada ou pela efetividade duradoura do bem que ela produz? Pois o inferno é muitas vezes pavimentado com boas intenções, e a estrada para a saúde pública, com obras inacabadas ou, pior, inoperantes.
Não se pode, por certo, negar o imperativo moral de que o Estado, como gestor do bem comum e garante da ordem justa, promova o acesso digno à saúde. O Catecismo da Igreja Católica recorda que o acesso aos cuidados de saúde é um direito fundamental, intrinsecamente ligado à dignidade da pessoa humana. A intenção de fortalecer a estrutura de atendimento, distribuindo melhor os serviços e aproximando o cuidado da população, conforme as próprias palavras do governador, é um ideal que ecoa a solicitude cristã pelos mais vulneráveis. Ver o poder público empenhado em suprir lacunas na assistência, como a expansão de policlínicas e a criação de serviços psicossociais, é um sinal que, em princípio, aponta para a reta razão e o dever cívico.
Contudo, a prudência, virtude cardeal que São Tomás de Aquino eleva como a “reta razão no agir”, exige mais do que a mera edificação de tijolos e concreto. O que é um hospital senão uma forma sem alma, uma matéria sem espírito, se lhe faltam os médicos para curar, os enfermeiros para cuidar, os medicamentos para medicar e a verba para operar? Um edifício novo, por mais moderno que seja, é apenas um esqueleto mudo se não houver um plano sólido para sustentar sua vida, dia após dia. É a velha lição do senso comum: de que serve o celeiro repleto se não há mãos para colher nem pão para assar?
É aqui que o pacote de Camaçari, apesar de seu vulto, revela suas lacunas mais inquietantes. Onde está o plano de custeio detalhado, com fontes de financiamento contínuas, para a manutenção, os insumos e, crucialmente, a folha de pagamento das novas UPAs, CERs, UBSs e CAPS? A promessa de R$ 39 milhões para construir pouco vale se não há igual empenho e transparência para manter e operar. Mais grave ainda, qual a estratégia concreta para atrair e reter os profissionais de saúde qualificados – médicos, enfermeiros, psicólogos – que darão vida a essas estruturas, especialmente em um contexto de notória escassez e condições de trabalho muitas vezes precárias? Sem pessoal, o investimento torna-se um fardo, uma promessa vazia que apenas realimenta a desilusão popular.
A modernidade tem uma curiosa predileção pela fachada, pela inauguração grandiosa, pelo corte da fita que se presta a holofotes e manchetes. Chesterton, com sua perspicácia atemporal, alertava para o perigo de confundir progresso com mera mudança, e de trocar a substância pela sombra. Em pleno ano pré-eleitoral, a “expansão da rede” soa menos como um imperativo técnico e mais como um expediente político, onde a obra nova se sobrepõe à necessária, porém menos fotogênica, manutenção e melhoria das unidades já existentes. É a tentação de exibir o troféu antes mesmo de se ter vencido a partida. A saúde pública não se resolve com gestos simbólicos, mas com gestão austera, investimento perene e, acima de tudo, respeito pela inteligência do povo.
Ademais, a simples adição de novos edifícios, por si só, não desata os nós górdios da burocracia, das filas intermináveis, da falta de coordenação entre os níveis de atenção ou da deficiência na gestão de fluxos. O bem comum exige um sistema de saúde integral, humanizado e territorializado, sim, mas que funcione como um organismo vivo e coeso, e não como uma colcha de retalhos de obras isoladas. A Doutrina Social da Igreja adverte que a idolatria do Estado, por vezes, confunde a providência com a mera exibição de poder, esquecendo que o verdadeiro serviço público reside na eficiência e na entrega de resultados concretos, auditáveis e sustentáveis para a população, e não em meras estatísticas de construção.
A autoridade legítima tem o dever de prestar contas não apenas dos recursos investidos, mas dos resultados alcançados. Os cidadãos de Camaçari merecem saber como esses milhões se traduzirão em vidas salvas, sofrimento aliviado e dignidade restaurada, e não apenas em prédios que se deterioram por falta de custeio ou de profissionais. A caridade na verdade exige que se veja além do verniz da propaganda e se exija a substância de um plano exequível. É preciso um compromisso que vá além da cerimônia de inauguração, estendendo-se pela árdua e invisível tarefa de garantir que cada centavo seja uma semente de bem, e não de decepção.
No fim das contas, de nada adianta edificar catedrais de concreto para a saúde se o espírito do cuidado e da prudência for varrido para debaixo do tapete. Pois uma estrutura sem alma é apenas uma ruína à espera.
Fonte original: Jornal Grande Bahia (JGB)
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.