A especialista em segurança internacional Farah N. Jan, da University of Pennsylvania, publicou em 10 de março de 2026 uma análise na plataforma The Conversation, veiculada pelo Terra, apontando que o resultado da guerra no Iraque foi um desastre para os Estados Unidos e que um conflito contra o Irã poderia seguir caminho semelhante. A pesquisadora, que se foca em segurança nuclear e política de alianças no Oriente Médio, destaca a discrepância entre o sucesso militar e o desfecho político.
Os Estados Unidos alcançaram todos os objetivos militares iniciais na guerra do Iraque em 2003, com a captura e execução de Saddam Hussein, domínio aéreo total em poucos dias e o colapso do regime em 21 dias. No entanto, mais de 20 anos após o conflito, o Iraque é descrito como um Estado autoritário com partidos políticos e milícias apoiadas por Teerã, operando abertamente e ocupando cargos oficiais, colocando o país dentro da esfera de influência do Irã. Os EUA gastaram US$2 trilhões e perderam 4.488 vidas americanas na tentativa de reconstrução. As ordens emitidas em abril de 2003 por L. Paul Bremer, chefe da Autoridade Provisória da Coalizão, dissolvendo o Partido Baath e o Exército iraquiano (que deixou aproximadamente 400.000 soldados desarmados e sem salários), foram consideradas "catastróficas" pela especialista, criando um vácuo preenchido por redes de influência iraniana construídas desde a década de 1980.
A análise de Jan estende a lição do Iraque para o Irã, questionando quem preencheria o vácuo de poder se o regime iraniano fosse derrubado. Segundo ela, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) é o grupo que "atende a todos os três critérios -- organizado, armado e disposto", controlando cerca de 30% a 40% da economia iraniana e gerenciando vastos conglomerados. Após a morte do aiatolá Ali Khamenei no início da campanha de bombardeios dos EUA e Israel em 2025, a Guarda Revolucionária assumiu o controle efetivo da tomada de decisões, culminando na nomeação de Mojtaba Khamenei, "com laços profundos com a Guarda Revolucionária", como líder supremo em 8 de março de 2026. A especialista afirma que "não é possível desmantelar a Guarda Revolucionária sem colapsar a economia", o que resultaria em um Estado falido.
A oposição iraniana no exílio, incluindo o Mujahedeen-e-Khalq e os monarquistas, não possui legitimidade interna, um problema similar ao enfrentado pela oposição iraquiana em 2003. Jan ressalta as diferenças significativas entre o Iraque de 2003 (25 milhões de habitantes, exército enfraquecido, sem programa nuclear ativo) e o Irã atual (92 milhões de habitantes, redes de representantes ativadas por ataques externos e um estoque de "mais de 440 quilos de urânio altamente enriquecido" não totalmente rastreado pela Agência Internacional de Energia Atômica desde os ataques de 2025). A autora conclui que Washington "não tem resposta para nenhuma destas perguntas - apenas uma teoria de destruição", e que a declaração do ex-presidente Donald Trump de que "quem quer que governe o Irã deve receber a aprovação de Washington" demonstra uma "preferência, mas não um plano".
A análise factual sobre os desdobramentos no Iraque e os riscos no Irã, embora relevante para a compreensão das dinâmicas geopolíticas, adota uma perspectiva que falha em questionar a raiz da intervenção e seus custos humanos e sociais, privilegiando uma visão estratégica estatal sobre a soberania e o bem-estar das populações. Ao focar na "discrepância entre sucesso militar e desfecho político" do ponto de vista norte-americano, a tese despolitiza e desumaniza o impacto de guerras de agressão, reduzindo a catástrofe social a um mero erro tático. Esta abordagem ignora a assimetria de poder fundamental que permite a uma nação impor sua vontade pela força, perpetuando um ciclo de violência e desestabilização regional sob o pretexto da segurança ou da "reconstrução".
A dissolução unilateral do exército e do Partido Baath no Iraque, descrita como "catastrófica" para os interesses dos EUA, é, na realidade, a imposição brutal de uma desestruturação estatal que lançou centenas de milhares de indivíduos à vulnerabilidade social e econômica, criando um vácuo preenchido por forças não-estatais. Pensadores como Boaventura de Sousa Santos nos alertam para a "sociologia das ausências" em tais narrativas, onde as vozes, o sofrimento e a agência das populações locais são sistematicamente marginalizados em favor de uma análise centrada nas potências globais. O gasto de trilhões de dólares e a perda de vidas americanas são quantificados, mas o custo incomensuravelmente maior em vidas iraquianas, a destruição de infraestruturas, o deslocamento em massa e o trauma coletivo são silenciados, evidenciando uma hierarquia tácita de valor da vida humana e do impacto social.
Similarmente, a argumentação de que "não é possível desmantelar a Guarda Revolucionária sem colapsar a economia" do Irã expõe como estruturas de poder político e militar se imbricam profundamente com o capital, formando um complexo sistema de controle que se beneficia da exploração e da exclusão. Essa dinâmica ressoa com as análises de economistas como Ha-Joon Chang, que demonstram como as políticas econômicas são intrinsecamente políticas e servem para consolidar ou desmantelar certas elites, com profundos impactos distributivos. A proposta de "quem quer que governe o Irã deve receber a aprovação de Washington" é a expressão máxima de uma mentalidade neocolonialista que nega a autodeterminação dos povos e a democratização dos processos políticos, minando qualquer possibilidade de paz e estabilidade genuínas na região.
Para romper com este ciclo, a comunidade internacional deve ir além da mera análise de custo-benefício militar, focando na promoção de políticas públicas inclusivas e no fortalecimento das instituições civis. Uma perspectiva progressista exigiria a redistribuição de recursos para o desenvolvimento sustentável, o respeito à soberania nacional e a garantia dos direitos fundamentais, em vez de recorrer a intervenções que geram mais instabilidade. Como argumentaria Amartya Sen, a verdadeira segurança e a estabilidade regional não podem ser impostas pela força, mas são construídas através da expansão das capacidades humanas e da participação popular, permitindo que as sociedades construam seu próprio futuro de forma equitativa e autônoma.
Intervenção Externa: Lições do Iraque para a Política no Irã
O debate sobre a intervenção externa, tão visceralmente presente em nossa era, ganha contornos dramáticos ao revisitarmos a experiência do Iraque e suas projeções para o Irã. Não é apenas uma questão de estratégia militar versus desfecho político, mas de uma profunda inquirição sobre a natureza da autoridade, o alcance da prudência na governança e o verdadeiro significado do bem comum, que transcende fronteiras e ambições imediatistas de poder.
É inegável, como aponta a análise factual, que a intervenção no Iraque, embora militarmente exitosa em seus objetivos iniciais de depor um regime, revelou-se um desastre estratégico para os interesses norte-americanos, gerando um vácuo de poder preenchido por forças hostis e consolidando a influência de Teerã na região. O custo em vidas e recursos, colossal para os intervenientes, é uma chaga aberta que questiona a eficácia de uma política externa pautada meramente pela força. Contudo, ir além de uma contabilidade de sucessos e fracassos táticos exige a coragem de reconhecer que a tragédia se aprofunda na desconsideração dos custos humanos e sociais, muitas vezes invisibilizados nas narrativas centradas em potências globais. A dissolução abrupta do exército e do Partido Baath iraquianos, embora vista como um erro tático, foi, antes de tudo, uma falha em compreender a complexidade orgânica de uma sociedade, uma lição que já Edmund Burke, em sua reflexão sobre a Revolução Francesa, nos alertava sobre os perigos de se desmantelar estruturas sociais sem um projeto prudente e enraizado na realidade local.
A verdadeira questão, portanto, não reside em meras deficiências de planejamento ou na inadequação de uma oposição no exílio, mas na própria validade e sabedoria das premissas que justificam tais intervenções. O anseio por um mundo mais justo e seguro não pode ser alcançado através de uma mentalidade que, ainda que velada, insiste em ditar o futuro de nações soberanas sob o pretexto da segurança ou da "democratização". O pressuposto de que "quem quer que governe o Irã deve receber a aprovação de Washington" trai uma visão que ignora a autodeterminação dos povos e a dignidade intrínseca de cada comunidade política, essencial para a estabilidade genuína.
Aqui, os ensinamentos de Aristóteles sobre a prudência (phrónesis) se mostram indispensáveis. A prudência não é apenas a habilidade de escolher os meios mais eficazes para um fim, mas a virtude que nos permite discernir o fim último e justo de nossas ações. Uma intervenção militar que não considera a integralidade do bem comum — que inclui a paz, a ordem, a justiça e a autodeterminação dos povos afetados — está fadada ao fracasso moral e, consequentemente, estratégico. São Tomás de Aquino nos recorda que a lei natural impõe limites às ações estatais, mesmo as mais poderosas, e que a paz duradoura somente floresce no respeito mútuo e na promoção das condições para que cada pessoa e cada povo possam desenvolver-se plenamente. O colapso de uma economia ou a desestruturação de um Estado, independentemente do regime que se queira derrubar, jamais poderá ser o caminho para a ordem se resultar na miséria e na desesperança de milhões.
A superação deste debate polarizado reside, assim, na elevação do olhar para uma diplomacia e uma política externa guiadas pela solidariedade e pela subsidiariedade. Reconhecer que a verdadeira segurança não pode ser imposta externamente, mas deve ser construída internamente, a partir do fortalecimento das capacidades e instituições civis de cada nação. Roger Scruton, ao advogar pela importância das lealdades locais e das comunidades orgânicas, sugere que a ordem social é um tecido complexo, que não pode ser arbitrariamente cortado ou remendado por desígnios externos. O papel da comunidade internacional, quando necessário, deve ser o de apoiar, e não de substituir, a soberania e a agência dos povos, promovendo o desenvolvimento integral e respeitando as particularidades culturais e políticas de cada um, em consonância com a Doutrina Social da Igreja.
Em última instância, a medida de uma política externa justa e eficaz não reside no domínio militar ou na imposição unilateral de modelos, mas na capacidade de fomentar uma paz verdadeira, enraizada na dignidade humana, no respeito à lei natural e na busca incansável do bem comum para todos os povos. Este é o caminho da razão e da virtude, a única via para transcender a recorrência cíclica de conflitos e desilusões geopolíticas.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.