Intervenção no Irã: Lições Não Aprendidas do Iraque

Washington considera intervenção no Irã, repetindo erros do Iraque. A falta de plano pós-conflito e a unilateralidade ignoram princípios de justiça e subsidiariedade, arriscando novo caos.

🟢 Análise

A imagem da estátua de Saddam Hussein caindo no centro de Bagdá, erguida com a ajuda de um veículo blindado americano, prometia não apenas o fim de um tirano, mas o alvorecer de uma nova ordem. Três semanas depois, a faixa “Missão Cumprida” a bordo de um porta-aviões ecoava uma vitória que, como a história logo demonstrou, era mais um desejo do que uma realidade. Aquela cena, pensava-se, seria uma lição indelével gravada a ferro e fogo na memória geopolítica do Ocidente. Hoje, contudo, Washington parece revisitar o mesmo manual de intervenção no Irã, prometendo evitar os erros passados, mas flertando perigosamente com as mesmas falhas de juízo.

A invasão do Iraque, justificada por armas de destruição em massa inexistentes, deixou um rastro de 461 mil mortos, um custo de trilhões de dólares e um Oriente Médio mais instável, onde o Irã, ironicamente, emergiu como um dos maiores beneficiários da remoção de seu arqui-inimigo. A “Missão Cumprida” deu lugar a uma longa ocupação, insurgência e guerra civil, com um planejamento pós-conflito tão ausente quanto as supostas ogivas nucleares. A confiança pública na política e na veracidade dos governos foi minada, e a crença na capacidade de impor a democracia por vias militares revelou-se uma quimera custosa.

Agora, os holofotes se voltam para o Irã. Há uma retórica de “guerra de escolha”, de desmantelamento de capacidades militares e até de “mudança de regime”, mas com a cautela aparente de evitar o comprometimento de tropas terrestres. A tese é sedutora: aprendemos com o Iraque, não repetiremos a ocupação. Mas, ao mesmo tempo, abandona-se a busca por legitimidade internacional via ONU, as deliberações públicas que (ainda que imperfeitas) pautaram o Iraque, e emerge uma estratégia que oscila entre a imprevisibilidade e a improvisação. A antiga ordem internacional, para alguns, está em colapso; para o governo americano, a unilateralidade parece ser a nova norma.

Este novo rumo, entretanto, não resolve a questão fundamental que minou a empreitada iraquiana: a ausência de um plano coerente e justo para o “dia seguinte”. Se a intenção é “desmantelar partes do Estado iraniano” ou promover “mudança de regime” apenas por via aérea, qual a estratégia concreta para preencher o vácuo de poder sem gerar caos, milícias e novas tiranias? A Doutrina Social da Igreja sempre ressaltou a importância da subsidiariedade, do fortalecimento dos corpos intermediários e da capacidade de um povo para construir sua própria ordem, enraizada em sua história e cultura, e não imposta por decreto externo. A ideia, defendida por alguns, de simplesmente “dizer aos iraquianos: ‘Parabéns, formem seu próprio governo. Aqui está uma cópia dos Artigos Federalistas. Boa sorte'”, não é apenas ingênua; é uma irresponsabilidade monumental que desdenha da complexidade da alma de um povo.

Há um paradoxo chestertoniano em ação: a pretensão de evitar uma “guerra sem fim” pela retirada de tropas pode apenas substituir uma forma de conflito por outra – talvez uma “guerra sem fim” de bombardeios, ciberataques e financiamento de proxies, que igualmente gera instabilidade crônica, desagregação social e um sofrimento incalculável para os civis. A veracidade nas justificativas é corroída quando os objetivos mudam conforme a conveniência, e a responsabilidade falha quando a ação militar não é acompanhada de um discernimento político maduro sobre as consequências de longo prazo para a ordem justa.

A verdadeira justiça nas relações internacionais exige mais do que a capacidade de demolir. Exige a responsabilidade de construir, o juízo reto de antecipar o futuro e a honestidade de reconhecer que a força militar, quando desacompanhada de um horizonte de paz fundado em princípios morais perenes, é uma espada que corta em todas as direções. O Ocidente não pode se permitir trocar a amnésia pela simulação de aprendizado, repetindo os mesmos erros sob novas roupagens. A estabilidade de uma região inteira, e o destino de milhões de almas, dependem de um governo que entenda que a guerra é uma calamidade e que a paz só floresce sobre os alicerces da verdade e da justiça, e não sobre ruínas improvisadas.

A derrubada de uma estátua pode ser um instante de catarse, mas a construção de uma nação livre e justa é um trabalho que transcende a força das armas e se ergue na fibra moral de um povo e na magnanimidade de um projeto civilizacional.

Fonte original: Terra

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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