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Medidas contra inflação são paliativas e geram dívida futura

O pacote anti-inflação do governo é um paliativo superficial, adia problemas fiscais e transfere custos para o futuro. Analisamos os riscos para a economia e a sociedade.

🟢 Análise

O anúncio do governo federal, nesta quinta-feira, de um novo pacote de medidas para conter a inflação, que em doze meses acumulou 5,2%, apresenta-se como uma intervenção cirúrgica na economia, prometendo um alívio de 0,8 ponto percentual nos próximos seis meses. As ações – redução temporária de impostos sobre combustíveis, ampliação de crédito para pequenos produtores rurais e renegociação de dívidas de famílias de baixa renda – visam, sem dúvida, tocar em pontos sensíveis do orçamento doméstico. Contudo, o que se vende como solução imediata para uma febre persistente pode ser apenas um paliativo que adia o diagnóstico e o tratamento da enfermidade real, comprometendo a saúde do corpo social a longo prazo.

A retórica de “agir de forma cirúrgica nos itens que mais pesam no bolso do brasileiro” pode seduzir pela aparente concretude, mas São Tomás de Aquino nos ensina que o bem da sociedade não se sustenta apenas na remediação dos efeitos, mas na inteligência das causas. A inflação, afinal, não é um inimigo que se abate com poucos golpes em pontos isolados, mas um sintoma de desequilíbrios mais profundos, muitas vezes fiscais e estruturais. Ao focar em desonerações pontuais sem uma contrapartida fiscal clara ou um plano mais robusto de corte de gastos, o governo corre o risco de criar um passivo para o futuro, que será arcado pela coletividade dos contribuintes. Aqui se insere uma questão primária de justiça: não é lícito transferir para as gerações futuras ou para a totalidade da sociedade o ônus de uma política de alívio momentâneo.

A Doutrina Social da Igreja, particularmente nas encíclicas de Pio XI, adverte contra a tentação da estatolatria, a crença de que o Estado pode e deve resolver todos os problemas. Intervenções excessivas ou desordenadas, que minam a subsidiariedade ao invés de fortalecê-la, podem desfigurar a ordem natural da economia e da sociedade. A ampliação de crédito e a renegociação de dívidas, embora socialmente bem-vindas em princípio, exigem uma prudência ímpar. Em um ambiente de inflação persistente e juros elevados, tais medidas, desacompanhadas de um controle fiscal rigoroso, podem se converter em pressão adicional de demanda ou em um aumento do risco de inadimplência, corroendo o capital e a confiança, sem construir estabilidade duradoura.

A modéstia do impacto estimado – 0,8 ponto percentual frente a uma inflação acumulada de 5,2% – já é um sinal de alerta sobre a insuficiência do pacote. A oposição, não sem razão, classifica as medidas como “paliativas” e “eleitoreiras”, pois parecem visar mais ao aplauso de curto prazo do que à genuína estabilidade. A falta de um plano transparente de compensação fiscal para a renúncia de receita, ou de medidas estruturais que ataquem a raiz do problema inflacionário, mina a veracidade do discurso governamental e a confiança no seu comprometimento com o bem da cidade. O Banco Central, com sua posição cautelosa de manter a taxa Selic elevada, indica que o problema é de outra ordem e exige mais do que meras injeções de ânimo.

A verdadeira fortaleza de uma nação não reside na sua capacidade de simular prosperidade, mas na sua determinação em construir alicerces sólidos para a economia, cultivando as virtudes da laboriosidade, da temperança no gasto e da honestidade no diagnóstico dos problemas. O pacote, tal como apresentado, parece um esforço desarticulado que, ao invés de complementar a política monetária, pode torná-la mais onerosa e prolongada. A questão não é apenas de aritmética econômica, mas de um cálculo moral sobre o futuro, sobre a capacidade de um povo arcar com seus custos sem que os mais fracos sejam esquecidos ou que os desafios sejam meramente empurrados para o amanhã.

Quando a política se contenta em aliviar a febre sem purgar a infecção, a doença tende a voltar mais forte, e a conta, mais cara.

Fonte original: Reuters Brasil

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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