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Medidas Anti-Inflação: O Preço da Superficialidade Governamental

Governo anuncia medidas "cirúrgicas" contra a inflação, mas a coluna critica a superficialidade e insustentabilidade fiscal. O pacote ignora causas estruturais e a Doutrina Social da Igreja.

🟢 Análise

O bolso do brasileiro, que sente o repuxo da inflação como uma febre persistente e corrosiva, busca alívio onde quer que o encontre. Nesse cenário de urgência, o governo federal anunciou um pacote de medidas econômicas, prometendo uma intervenção “cirúrgica” nos preços dos combustíveis, ampliação de crédito para pequenos produtores rurais e renegociação de dívidas para famílias de baixa renda. A intenção declarada é mitigar o avanço de uma inflação que já acumula 5,2% nos últimos doze meses, com a expectativa de um impacto modesto de 0,8 ponto percentual em seis meses. Mas a história nos ensina que nem todo curativo estanca a hemorragia, e nem toda promessa resolve a raiz da doença.

A virtude da justiça exige que o Estado, em sua função de zelador da ordem social, atenda às necessidades prementes de seu povo. É justo aliviar o peso que o custo de vida impõe aos mais vulneráveis, e as medidas de crédito e renegociação de dívidas, se bem desenhadas, podem de fato oferecer um respiro necessário a quem mais precisa. Contudo, essa mesma justiça nos obriga a questionar a sustentabilidade fiscal de tais ações. Reduções temporárias de impostos, como a sobre combustíveis, sem uma contrapartida clara de corte de despesas ou um plano de compensação, não raro se convertem em renúncias de receita que comprometem o equilíbrio orçamentário futuro. É uma injustiça para com as gerações vindouras, que herdarão o custo de uma miopia presente.

O problema inflacionário não é um mal superficial que se cura com bálsamos pontuais. As vozes da oposição e a postura cautelosa do Banco Central, que insiste em manter a taxa Selic elevada, sinalizam que as medidas apresentadas carecem de profundidade. São “paliativas”, como bem apontado, e não atacam as causas estruturais que alimentam a espiral de preços. Aqui, a Doutrina Social da Igreja, particularmente através de Pio XI e seu alerta contra a estatolatria, nos recorda que o Estado tem um papel, mas não pode pretender ser a única solução para todos os males. Ao invés de fortalecer os corpos intermediários da sociedade — as famílias, as associações, as empresas — para que atuem com responsabilidade e criatividade, a intervenção excessiva e descoordenada pode minar a vitalidade do tecido social e econômico. A subsidiariedade ensina que o que pode ser feito pelos menores, deve ser deixado aos menores, e o Estado deve intervir para auxiliar, não para suplantar.

Ademais, a veracidade é uma exigência inegociável na arena pública. Chamar de “cirúrgico” um pacote que projeta um impacto tão limitado diante da inflação acumulada, e que carece de detalhes sobre a compensação fiscal, é esticar a corda da credibilidade. Quando a política fiscal do Executivo entra em rota de colisão com a política monetária do Banco Central – uma buscando aliviar custos via renúncia fiscal e crédito, outra mantendo juros altos para conter a moeda –, o resultado não é cooperação, mas incerteza. A ausência de um plano de longo prazo para as reformas fiscais e estruturais, que são a verdadeira chave para a estabilidade, sugere que o foco pode estar mais na galeria do que na engenharia.

O desafio real é construir uma economia justa e próspera sobre pilares sólidos, e não sobre andaimes eleitorais. Isso exige um compromisso com a honestidade intelectual, admitindo a complexidade dos problemas e propondo soluções que, embora talvez impopulares no curto prazo, sejam eficazes e sustentáveis. A verdadeira proteção dos mais vulneráveis não se dá com medidas que mascaram o problema, mas com a criação de um ambiente econômico onde a produtividade, a responsabilidade e o mérito encontrem terreno fértil.

O alívio temporário, como um andaime esquecido, não pode substituir a construção paciente dos pilares que sustentam uma economia justa e próspera para todos.

Fonte original: Reuters Brasil

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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