A arquitetura de uma política econômica, como a de um edifício, revela sua solidez não apenas na altura prometida, mas na coerência de seus pilares e vigas. A recente apresentação de um novo pacote de medidas pelo governo federal, visando conter uma inflação de 5,2% acumulada nos últimos doze meses, surge com a promessa de um impacto de 0,8 ponto percentual, atuando de forma “cirúrgica” sobre os itens que mais pesam no bolso do brasileiro. Redução temporária de impostos sobre combustíveis, ampliação de crédito para pequenos produtores rurais e renegociação de dívidas de baixa renda são os pontos anunciados para um alívio imediato. No entanto, o desenho dessa intervenção levanta questões fundamentais sobre sua integridade e sustentabilidade a longo prazo.
A primeira inquietação, de índole eminentemente justa, reside na sustentabilidade fiscal da União. Reduzir impostos sobre combustíveis sem apresentar cortes compensatórios nos gastos ou uma fonte alternativa de receita equivale a amputar um pilar do edifício financeiro do Estado. A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, ensina que a propriedade tem uma função social e o Estado, ao cobrar impostos, deve fazê-lo com equidade e em vista do bem comum, mas também deve gerir seus recursos com laboriosidade e responsabilidade, não legando ônus excessivos às gerações futuras. Um alívio momentâneo que compromete a saúde fiscal do tesouro é um falso alívio, pois a conta, ainda que invisível no curto prazo, será invariavelmente paga pelos cidadãos, talvez com juros mais altos ou serviços públicos precarizados no futuro.
Mais paradoxal é a contradição inerente a certas medidas: ao mesmo tempo em que se busca conter a inflação, injeta-se poder de compra na economia. A ampliação de crédito e a renegociação de dívidas, embora socialmente bem-vindas, podem paradoxalmente estimular a demanda agregada num cenário já inflacionário. É a loucura lógica de tentar apagar um incêndio com gasolina, uma manobra que desafia a sanidade econômica básica. G. K. Chesterton, com sua perspicácia, diria que o moderno muitas vezes se perde ao tentar ser excessivamente engenhoso, esquecendo que as verdades mais elementares da realidade persistem. A inflação, um fenômeno complexo, não cede a encantamentos que, ao mesmo tempo, puxam o freio e o acelerador.
A crítica mais incisiva aponta para a superficialidade das ações. A inflação, na maioria das vezes, não é uma enfermidade de um órgão isolado, mas um sintoma de desequilíbrios mais profundos na estrutura produtiva, na produtividade, na carga tributária ou na oferta de bens. Pacotes que se limitam a mexer nos preços de itens específicos ou a distribuir crédito sem atacar as causas estruturais são meros paliativos. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, advertia sobre a tendência de o Estado absorver funções que caberiam a corpos intermediários e à iniciativa individual, resultando em uma centralização que sufoca a vitalidade econômica e impede soluções orgânicas. A verdadeira justiça social exige um ambiente econômico estável e previsível, onde o valor do salário não se derreta dia após dia e onde o produtor possa planejar com segurança.
A estimativa de impacto de 0,8 ponto percentual na inflação, projetada pelo próprio governo, é um dado que exige a virtude da veracidade não apenas de quem a anuncia, mas de quem a analisa. A ausência de validação independente, somada à “posição cautelosa” do Banco Central, indica que as projeções oficiais devem ser vistas com o discernimento político de quem busca a verdade integral, não apenas a narrativa conveniente. O governo, ao propor soluções, tem o dever de ser honesto não só nas intenções, mas na transparência sobre os custos e riscos potenciais de suas medidas.
Em última instância, o desafio é distinguir entre o gesto político de curto prazo e a construção de uma ordem econômica justa e duradoura. Não basta aliviar a dor superficial; é preciso curar a doença em sua raiz. O que se exige não é um remendo sobre um tecido já puído, mas um redesenho de políticas que, sob os princípios da Doutrina Social da Igreja, garantam a ordem justa, a estabilidade monetária e a prosperidade real para o povo, e não para a massa manipulável. O verdadeiro termômetro da responsabilidade estatal não está na rapidez de um anúncio, mas na integridade e na sustentabilidade do projeto que se edifica para o porvir.
Fonte original: Reuters Brasil
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.