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Inflação: Medidas do Governo Ignoram Custo Fiscal Futuro

Medidas do governo contra a inflação são superficiais e arriscam o futuro fiscal. Analisamos como a falta de reformas estruturais pode gerar um ônus maior para as contas públicas.

🟢 Análise

Quando o peso da inflação se aninha no orçamento familiar como um hóspede indesejado, a cada ida ao mercado, a cada fatura de combustível, a vida comum se faz mais árdua. O governo federal, então, entra em cena, munido de um pacote de medidas desenhadas para aliviar a tensão. Anuncia-se a redução temporária de impostos sobre combustíveis, a ampliação de crédito a pequenos produtores rurais e a renegociação de dívidas para famílias de baixa renda, tudo isso na promessa de um impacto “cirúrgico” na escalada dos preços.

A intenção, é certo, pode ser louvável: estancar a hemorragia imediata no bolso do cidadão. No entanto, a economia de uma nação não é um organismo que se cura com emplastros superficiais quando a doença ataca as profundezas da estrutura. A inflação, com seu acumulado de 5,2% nos últimos doze meses, é um sintoma complexo, cujas raízes demandam muito mais que uma intervenção pontual e de efeito incerto. O alívio prometido de 0,8 ponto percentual em seis meses soa como uma gota no oceano, especialmente quando a autoridade monetária, o Banco Central, mantém sua taxa básica de juros em patamares elevados, sinalizando uma desconfiança quanto à eficácia duradoura das medidas fiscais.

Aqui reside o cerne do problema, e a preocupação legítima que a Antítese aponta: a sustentabilidade fiscal dessas renúncias tributárias. Ao invés de uma reforma estrutural que enderece as causas da instabilidade – seja choque de oferta, indexação ou desvalorização cambial –, o que se oferece é uma maquiagem de fachada que pode comprometer ainda mais as contas públicas. Uma coisa é auxiliar o produtor com crédito, outra é desfinanciar o Estado sem um plano compensatório robusto. A justiça de uma política econômica se mede não apenas pelo alívio instantâneo que proporciona a alguns, mas pela integridade que preserva para todos, incluindo as gerações futuras que herdarão o custo fiscal.

São Tomás de Aquino, ao tratar da ordem dos bens, nos lembra que o bem particular não pode ser buscado em detrimento do bem comum maior e mais duradouro. Pio XI, em sua encíclica Quadragesimo Anno, sublinha o princípio da subsidiariedade, que orienta a intervenção estatal: o Estado deve apoiar, mas não esmagar ou substituir a iniciativa dos corpos intermediários e dos indivíduos. Quando o governo federal assume para si a tarefa de “agir cirurgicamente” sem atacar o problema sistêmico, corre o risco de cair na estatolatria, a pretensão de que a solução para todos os males reside na ação centralizada, diluindo a responsabilidade dos outros agentes econômicos e postergando as necessárias reformas de ordem profissional. A veracidade da intervenção exige que se reconheça o escopo e os limites de sua ação.

Não basta, como diria Chesterton em seu modo paradoxal, pintar a casa de uma cor vibrante se as fundações estão rachadas e o telhado goteja. O alívio imediato, sem um plano de médio e longo prazo, é um engodo que troca a sanidade da estabilidade futura pela loucura lógica da gratificação instantânea. As medidas em questão parecem mais preocupadas em acalmar a superfície do lago do que em drenar o pântano que o alimenta, ignorando que o “alívio no bolso do brasileiro” pode se converter em um ônus ainda maior no futuro, via juros mais altos ou novos impostos.

É preciso, portanto, um juízo claro e firme. As medidas governamentais, embora possam oferecer um respiro passageiro a setores específicos, não constituem uma resposta adequada à inflação estrutural. Ao invés de edificar sobre alicerces sólidos, optam por reforçar uma fachada frágil, gerando incerteza fiscal e descoordenação com a política monetária. A verdadeira justiça social se constrói com a honestidade de enfrentar os problemas em sua totalidade, com a fortaleza de promover reformas impopulares se necessárias, e com a magnanimidade de pensar não apenas no próximo balanço eleitoral, mas na prosperidade duradoura da casa comum.

Uma nação prospera não com promessas de aliviar o incômodo, mas com a coragem de restaurar a fundação que sustenta a todos.

Fonte original: Reuters Brasil

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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