A arte de governar, no que tange à economia, assemelha-se mais ao trabalho paciente de um jardineiro que cultiva o solo do que ao espetáculo ruidoso de um pirotécnico, que promete luzes efêmeras para disfarçar a escuridão. O governo federal, em sua recente investida contra a inflação, parece ter optado pela segunda via, anunciando um pacote de medidas que, embora visem o alívio imediato, correm o risco de tratar os galhos secos sem jamais alcançar as raízes do problema.
Os fatos são conhecidos: com uma inflação acumulada de 5,2% nos últimos doze meses, o Planalto lançou mão de ferramentas como a redução temporária de impostos sobre combustíveis, a ampliação de crédito para pequenos produtores rurais e a renegociação de dívidas de famílias de baixa renda. O Ministro da Fazenda, ao declarar que tais ações trariam um impacto de 0,8 ponto percentual na inflação em seis meses, pareceu acender uma vela numa noite escura. A intenção de aplacar o fogo que consome o poder de compra do brasileiro é louvável em si, mas a eficácia da estratégia é a questão de fundo.
E é precisamente na profundidade que reside a preocupação legítima. A oposição, ainda que imbuída de um tom político, acertou ao classificar as medidas como “paliativas” e insuficientes para atacar a verdadeira “raiz do problema inflacionário”. Não se pode esperar que um ajuste marginal de 0,8 p.p. consiga ancorar as expectativas de um mercado ou de uma população que lida com uma escalada de 5,2% ao ano. A descoordenação entre o Executivo e a autoridade monetária é um sintoma eloquente dessa superficialidade: enquanto o governo oferece um “curativo”, o Banco Central, com sua sinalização de manutenção da taxa Selic elevada, indica que a ferida é mais profunda e exige um tratamento sistêmico, não apenas a supressão da dor momentânea.
A Doutrina Social da Igreja, em sua robusta tradição, especialmente sob a pena de Pio XI, adverte contra a estatolatria e a ilusão de que o Estado pode, por si só, resolver todos os males sem uma adesão rigorosa à justiça social e à subsidiariedade. A intervenção governamental, para ser justa e eficaz, deve fortalecer os corpos intermediários da sociedade e promover uma ordem econômica onde a estabilidade não dependa de benesses temporárias, mas da laboriosidade e responsabilidade de todos. O que se observa, porém, é a busca por atalhos que, no fim das contas, postergam a solução definitiva e impõem aos cidadãos um custo invisível, seja pela instabilidade futura, seja pela erosão da confiança nas instituições.
É uma verdade paradoxal, digna de Chesterton, que a pressa em resolver um problema complexo com medidas simples pode, na realidade, complicar a situação ainda mais. Ao invés de uma “cirurgia” nos itens que “mais pesam no bolso”, como afirmou o Ministro, o que se vê é um enxugar de superfícies enquanto o vazamento persiste na tubulação. Uma economia, tal como um organismo vivo, exige um cuidado que combine o diagnóstico preciso com o tratamento adequado e, sobretudo, com a paciência da convalescença. Sem um plano que vá além do semestre, que detalhe como as desonerações serão compensadas e como os ganhos de produtividade e a disciplina fiscal serão cultivados, as expectativas permanecerão em terreno movediço.
A verdadeira justiça econômica não se manifesta na distribuição de alívios fugazes, mas na edificação de estruturas que permitam a cada família e a cada trabalhador prosperar com segurança e dignidade. Isso demanda não apenas a virtude da justiça na concepção das políticas, mas a laboriosidade e a responsabilidade na sua execução e na vigilância constante dos fundamentos da economia. Um governo sábio não é aquele que promete o fim do inverno no auge do outono, mas aquele que prepara a terra para a colheita com a certeza de que o tempo de semear e o tempo de esperar são partes indissociáveis do processo. A promessa de uma redução de 0,8 ponto percentual, diante da gravidade da inflação, não é um plano, mas um convite à complacência que o país não pode se permitir.
A estabilidade econômica, que garante a paz social e a verdadeira liberdade ordenada, é fruto de uma semeadura paciente e de um cultivo constante, não de uma chuva rápida que mal umedece a superfície.
Fonte original: Reuters Brasil
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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