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Inflação no Brasil: Paliativos Fiscais e o Preço da Ilusão

Medidas anti-inflação do governo são paliativos, não cura. O artigo analisa como desonerações e crédito mascaram a falta de soluções estruturais para a inflação crônica no Brasil.

🟢 Análise

Quando a doença é crônica, paliativos podem aliviar a dor, mas raramente oferecem a cura duradoura. No tabuleiro movediço da economia brasileira, as medidas de contensão da inflação recém-anunciadas pelo governo federal chegam como um sopro de alívio momentâneo, mas parecem mais um emplastro apressado sobre uma ferida profunda do que a cirurgia resoluta que a moléstia exige. Uma nação, afinal, não se edifica sobre expedientes precários, mas sobre fundamentos sólidos e verdades irrenunciáveis.

O pacote, com sua prometida redução temporária de impostos sobre combustíveis, a ampliação de crédito para pequenos produtores rurais e a renegociação de dívidas de famílias de baixa renda, surge como um esforço para “agir de forma cirúrgica”, como afirmou o Ministro da Fazenda, esperando um impacto de quase um ponto percentual na inflação ao longo dos próximos seis meses. Ninguém negará a urgência de mitigar o sufoco que a inflação acumulada de 5,2% nos últimos doze meses impõe ao cotidiano das famílias brasileiras. Contudo, é no detalhe, ou na ausência calculada dele, que a substância das medidas se revela frágil e as preocupações legítimas da oposição e de economistas sérios encontram eco, não por partidarismo, mas por um senso elementar de cautela.

A primeira e fundamental questão de fundo reside na justiça distributiva e na veracidade da gestão pública. Uma desoneração tributária, sem a clareza de fontes de compensação ou cortes de gastos equivalentes e previamente estabelecidos, não é um milagre econômico, mas uma simples transferência de ônus. O que se alivia hoje na bomba de combustível ou na parcela de uma dívida pode se avolumar amanhã na dívida pública que paira sobre o futuro do país, na pressão persistente sobre a taxa Selic ou na necessidade de novos impostos indiretos que recairão, como de costume, sobre os ombros de todos, inclusive daqueles que o pacote pretende beneficiar de forma mais direta. Não há almoço grátis na economia de uma nação, apenas contas a serem pagas, e a honestidade intelectual exige clareza e transparência inegociáveis sobre quem as arcará e em que horizonte de tempo, para além das projeções otimistas do momento.

Além do risco fiscal latente, o pacote peca pela superficialidade. As medidas anunciadas, por mais bem-intencionadas que sejam na mitigação do sofrimento imediato, abordam primordialmente os sintomas, e não as causas estruturais da inflação crônica brasileira. Reduzir o imposto sobre combustíveis é um paliativo que ignora a volatilidade intrínseca do mercado internacional, as deficiências gritantes de infraestrutura e a burocracia que encarecem a logística interna, problemas que exigem soluções de longo prazo e não meros remendos. A ampliação de crédito, por sua vez, sem critérios claros e sem um ambiente que fomente a produtividade, a inovação e a segurança jurídica para o pequeno produtor, arrisca-se a ser um mero balão de oxigênio que se esvazia tão rapidamente quanto foi enchido. Como ensinava Pio XI, o Estado não deve esmagar os corpos intermediários da sociedade com uma “estatolatria” que centraliza soluções, mas sim amparar, com genuína subsidiariedade, as iniciativas dos cidadãos e das associações, de modo que a solução venha de uma ordem orgânica e robusta, e não de um mero decreto estatal de alívio temporário que desconsidera as engrenagens da vida real.

A discordância gritante entre a política fiscal, que afrouxa os cordões da receita em nome do alívio, e a monetária, que aperta os juros para conter o ímpeto inflacionário, desenha um quadro de esquizofrenia econômica que ninguém pode ignorar. Enquanto o Banco Central mantém a Selic em patamares elevados, sinalizando sua desconfiança na durabilidade ou na amplitude do alívio prometido, o governo propõe desonerações que podem, na ponta, estimular ainda mais a demanda em um cenário de oferta restrita e dificuldades produtivas. É o paradoxo de querer mover um carro empurrando o acelerador e o freio ao mesmo tempo, um esforço que se anula e que, no fim das contas, gera incerteza, mina a confiança dos investidores e exige que o Banco Central seja ainda mais restritivo para compensar as pressões geradas pela expansão fiscal. A sanidade, diria Chesterton em outro contexto, exige coerência, um alinhamento de forças para um objetivo comum e transparente, não uma luta fratricida entre os braços do próprio Estado.

O real interesse da cidade, o bem duradouro do povo brasileiro, não se satisfaz com remendos emergenciais que adiam a conta e iludem a população com a promessa de um atalho fácil e indolor. Exige-se uma visão mais ampla e corajosa, pautada pela honestidade intelectual e pela coragem política de enfrentar as causas estruturais da inflação: o gigantismo estatal, a burocracia excessiva, a baixa produtividade crônica, a carga tributária sufocante e a falta de investimentos estratégicos em infraestrutura que barateiem o custo Brasil de forma perene e para todos. É preciso ir além da retórica da bondade e abraçar a dureza da gestão responsável, que não promete milagres de curto prazo, mas entrega resultados sustentáveis para o destino comum de todos os brasileiros, sem hipotecas futuras.

A verdadeira estabilidade econômica não se constrói com a ilusão do alívio fácil, mas com a disciplina da verdade e a paciência do trabalho que edifica sobre rocha firme, para gerações, não apenas para o próximo ciclo eleitoral.

Fonte original: Reuters Brasil

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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