A cada novo ciclo do Imposto de Renda, milhões de brasileiros se debruçam sobre a tarefa cívica de acertar as contas com o Fisco, movidos pelo senso de dever ou pelo medo da malha fina. Mas o que outrora era um ritual burocrático, hoje se transforma num campo minado digital, onde a inteligência artificial não é aliada, mas inimiga. Criminosos, mimetizando a Receita Federal ou escritórios de contabilidade, usam a IA para sofisticar golpes de engenharia social, tornando quase indistinguível o verdadeiro do falso, com falsas promessas de restituição ou ameaças de multas urgentes, tudo para arrancar dados e dinheiro.
É fácil, e conveniente, creditar a proliferação desses ataques à “ingenuidade” das vítimas ou à inevitável complexidade do mundo digital. De fato, a vigilância individual e a literacia digital são necessárias. Mas reduzir o problema à falha de discernimento do cidadão é um simplismo irresponsável, uma desculpa que absolve os atores maiores de suas obrigações. A Receita Federal, os bancos e as plataformas digitais não podem se contentar em apenas emitir alertas e “dicas” de segurança. A infraestrutura digital que eles fornecem e mantêm foi desenvolvida, em muitos aspectos, sem a devida resiliência contra as manipulações sofisticadas que a IA agora torna triviais e escaláveis.
A verdadeira questão de justiça aqui não é se o indivíduo deve ser diligente — ele deve. A questão é se as instituições com maior poder, maior capacidade tecnológica e maior alcance estão cumprindo seu dever de proteger o direito dos cidadãos a um ambiente digital seguro, especialmente os mais vulneráveis. É uma forma de desordem social onde o ônus da proteção recai desproporcionalmente sobre aqueles com menor acesso à informação ou menor proficiência tecnológica, como idosos ou pequenos empreendedores. A ausência de dados abrangentes sobre o prejuízo real e o número de vítimas obscurece a escala do problema, impedindo estratégias de combate realmente eficazes.
Quando São Tomás de Aquino fala da ordem dos bens, ele nos lembra que a propriedade individual e a segurança são bens que a sociedade deve zelar. E o princípio da subsidiariedade, tão caro à Doutrina Social da Igreja, nos ensina que o que pode ser feito por uma esfera menor não deve ser avocado por uma maior; mas, igualmente, o que a esfera menor não pode, ou não consegue, fazer para seu próprio bem e o bem da vida comum, deve ser apoiado e protegido pelas esferas superiores. No caso dos golpes digitais, a proteção contra fraudes massivas e tecnologicamente avançadas não pode recair apenas sobre o ombro do usuário comum.
A exigência de elevar a conta Gov.br ao “Nível Ouro” ou ativar a dupla autenticação é uma defesa válida, mas pressupõe um acesso e um conhecimento que muitos não possuem. É como esperar que cada morador construa seu próprio fosso e muralha quando a cidade inteira está sob cerco. Chesterton, com sua perspicácia para o paradoxo, notaria que, ao invés de usar a inteligência para simplificar e securitizar a vida, a sociedade moderna permite que a mesma inteligência seja arma para a confusão e o assalto ao cotidiano. A sanidade nos manda admitir que, contra a loucura lógica das fraudes em escala, a simples “desconfiança” é uma defesa frágil.
É imperativo que o governo, as instituições financeiras e as grandes plataformas digitais invistam proativamente em IA e outras tecnologias avançadas para combater os criminosos, transformando a defesa de uma postura reativa para uma preditiva. Isso inclui sistemas de verificação de identidade robustos que tornem a engenharia social fundamentalmente ineficaz, e não apenas meramente “desaconselhada”. Inclui também a veracidade na comunicação, sendo transparentes sobre os riscos e, mais importante, sobre as ações concretas que estão sendo tomadas para garantir a integridade da infraestrutura digital.
Não se trata de negar a responsabilidade individual, mas de exigir que os grandes entes, detentores de poder e tecnologia, assumam a sua parcela na construção de um ambiente digital intrinsecamente seguro e justo para todos. Afinal, a ordem da convivência civil e a confiança em suas instituições são tesouros que nenhuma “dica de segurança” poderá reerguer, uma vez que a corrosão da fraude se torne o pão nosso de cada dia.
Fonte original: InfoMoney
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.