Uma acusação grave pende sobre a inteligência artificial, proferida com a autoridade da neurociência: “parasita digital”, “estelionato intelectual”, uma invenção nascida do logro e destinada à dominação. Miguel Nicolelis, com a veemência de um profeta a denunciar a idolatria, cataloga os custos ambientais colossais dos data centers, a apropriação quase escravocrata do labor cognitivo humano para treinar algoritmos, e a ameaça concreta à nossa própria capacidade de pensar, de discernir a verdade. É um quadro sombrio, onde a tecnologia, longe de ser uma ferramenta, parece ter se transfigurado em um agente de autodestruição, erigindo as “muralhas de uma prisão”, conforme já advertira Lewis Mumford.
O cerne da denúncia ressoa com antigas advertências da Doutrina Social da Igreja: o risco de que o engenho humano, em vez de servir à pessoa, a escravize sob o jugo de um sistema tecnocrático e desumano. A crítica à “estatolatria” de Pio XI, que via no Estado absolutista um culto perigoso, pode ser ampliada hoje para uma “tecnolatria” ou “mercadolatria”, onde a eficiência algorítmica e o lucro se tornam fins últimos, sacrificando a dignidade humana e a ordem da criação. Quando milhões de litros de água são consumidos diariamente para resfriar servidores, quando a produção intelectual de gerações é pilhada sem consentimento ou compensação, e quando a própria capacidade de discernimento é comprometida pela delegação acrítica, a justiça social é gravemente ferida.
Contudo, ao pintar a inteligência artificial como uma entidade monolítica e inerentemente maligna, corre-se o risco de ignorar o desafio primordial: a tecnologia é, por sua natureza, uma ferramenta. O martelo pode tanto edificar uma casa quanto destruir uma vida, a caneta tanto escrever um poema quanto furar um olho. A preocupação legítima com os impactos devastadores do uso irresponsável da IA não deve se confundir com um ceticismo ludita que, ao rejeitar o instrumento em sua totalidade, abdica da responsabilidade de governá-lo e direcioná-lo para o bem. A sanidade, como diria Chesterton em seu combate à loucura lógica das ideologias, reside em distinguir a coisa de seu abuso, o potencial do vício. A inteligência, em seu sentido pleno, é uma faculdade da alma, não um processo computacional, e assim permanece irredutível a qualquer máquina.
A verdadeira questão, portanto, não é se a inteligência artificial existe, mas como a justiça e a veracidade serão restauradas em sua aplicação. Isso implica uma ordem institucional que reconheça a propriedade difusa do conhecimento e remunere justamente os criadores de dados; uma governança que exija transparência no uso de recursos ambientais e desenvolva uma “IA verde” com pegada otimizada; e uma vigilância constante para que o discernimento humano, a atenção e a memória não sejam atrofiados pela delegação excessiva. É preciso aplicar o princípio da subsidiariedade: fortalecer os corpos sociais, as famílias, as escolas e as comunidades para que a educação se torne um escudo contra a pós-verdade e um farol para o pensamento crítico, ensinando a utilizar a ferramenta, e não a ser por ela moldado ou esmagado.
O debate não pode se limitar ao alarme, por mais justificado que seja em seus pontos críticos. A Doutrina Social da Igreja sempre advogou por um desenvolvimento integral, onde o progresso técnico serve à pessoa humana e ao destino comum. Isso significa que, enquanto se denuncia a pirataria digital e os riscos de dominação, é imperativo que a sociedade se engaje na construção de arcabouços éticos e jurídicos robustos. O próprio trabalho de Nicolelis em interfaces cérebro-máquina para a saúde demonstra que a tecnologia, quando bem direcionada, com a virtude da responsabilidade e o foco no vulnerável, pode ser um instrumento de cura e libertação, e não de escravidão.
O futuro da técnica, como o futuro do homem, não é determinado pela frieza do algoritmo, mas pela força da vontade humana, forjada na justiça e guiada pela verdade.
Fonte original: racismoambiental.net.br
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.