O murmúrio das engrenagens digitais, antes quase inaudível, tornou-se o novo ritmo nas grandes mesas do mercado financeiro brasileiro. Um estudo recente da Fundação Getúlio Vargas (FGV) desvela números que, à primeira vista, soam como a crônica de um progresso inquestionável: a inteligência artificial, já empregada por 78% das instituições financeiras, eliminou cerca de 18 mil postos de trabalho em dois anos, mas, em contrapartida, gerou 12 mil novas vagas. A doutora Marina Alves, coordenadora da pesquisa, sintetiza a paisagem com uma frase lapidar: “A transformação é irreversível.” Mas, se a correnteza é forte, cabe à reta razão discernir quem flutua e quem afunda, e qual o preço de uma “irreversibilidade” que não se coaduna com a justiça.
A aritmética fria de 18 mil vagas suprimidas contra 12 mil criadas revela uma perda líquida de 6 mil postos. Entretanto, essa é a menor das preocupações legítimas. O verdadeiro abismo não está no saldo numérico, mas no qualitativo: as funções eliminadas – atendimento ao cliente, análise de crédito, compliance – empregavam um perfil de trabalhador que, via de regra, não possui as habilidades exigidas pelas novas posições em ciência de dados ou engenharia de machine learning. Os indivíduos que perderam seus empregos não são, em sua maioria, os que ocuparão as cadeiras recém-criadas. Isso não é uma simples realocação; é, para muitos, uma profunda exclusão, um atestado de inaptidão gerado pela velocidade da inovação contra a lentidão da adaptação humana.
A ênfase nas remunerações 40% superiores oferecidas pelas novas vagas, sem um plano robusto de requalificação ou acesso efetivo à formação, soa menos como celebração do avanço e mais como naturalização de uma crescente polarização de renda. Ela beneficia uma elite tecnológica, enquanto a massa de trabalhadores deslocados pode enfrentar o desemprego ou a precarização. A afirmação de que a “transformação é irreversível”, embora tecnicamente correta em sua dimensão instrumental, não pode ser um salvo-conduto para o determinismo tecnológico que desresponsabiliza as instituições e o governo de implementar políticas ativas e justas de transição. Chesterton, em seu modo peculiar de expor a contradição moderna, talvez diria que o entusiasmo desmedido pela máquina, quando desacompanhado do cuidado com o homem, é a sanidade de um processo que caminha em direção à loucura social.
A Doutrina Social da Igreja, com seus pilares de justiça e subsidiariedade, oferece a bússola moral para este cenário. Leão XIII, em Rerum Novarum, e Pio XI, em Quadragesimo Anno, sublinharam a função social da propriedade e do capital, e a necessidade de um salário justo que permita ao trabalhador sustentar sua família. A eficiência algorítmica, por mais potente que seja, não pode jamais eclipsar a dignidade da pessoa humana e o direito ao trabalho. As grandes instituições financeiras, beneficiadas pela automação, possuem um dever ético e social de investir na requalificação e no suporte à transição de seus colaboradores, mitigando os custos humanos da “irreversibilidade” tecnológica. Não se trata de frear o progresso, mas de ordená-lo para que sirva ao homem, e não o contrário.
É preciso, portanto, que as instituições financeiras, os sindicatos e o grupo de trabalho anunciado pelo Banco Central vão além da discussão sobre viés algorítmico e transparência nas decisões automatizadas. Urge um mapeamento detalhado do perfil dos trabalhadores deslocados e a criação de programas efetivos de requalificação, financiados pelos que mais se beneficiam dessa transformação. É imperativo fortalecer os corpos intermediários – associações profissionais, cooperativas e sindicatos – para que representem o trabalho e colaborem na construção de pontes entre as habilidades obsoletas e as demandas do futuro. O capital que investe em IA tem a responsabilidade de garantir que a ordem profissional e a vida comum não sejam sacrificadas no altar da produtividade.
A polarização entre uma elite tecnológica e uma base de trabalhadores com dificuldades de inserção é um risco palpável à coesão social. O verdadeiro avanço não se mede apenas pela agilidade dos algoritmos, mas pela solidez da ponte que se constrói entre o passado e o futuro do trabalho, fundamentada na justiça e na dignidade do homem. A escolha entre o lucro desenfreado e o bem-estar social não é uma fatalidade tecnológica, mas uma decisão moral que precisa ser tomada com o discernimento da reta razão e o imperativo da caridade.
Fonte original: Valor Econômico
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.