A cada avanço vertiginoso da técnica, com suas promessas de otimização e eficiência, somos tentados a crer que o futuro se constrói apenas com códigos e algoritmos. É nesse diapasão que a ESPM Vitória anuncia sua primeira pós-graduação em “Inteligência Artificial Aplicada ao Marketing”, celebrada como um farol para profissionais que ambicionam liderar a transformação digital, combinando gestão, marketing e tecnologia em uma trilha que vai dos fundamentos às mais recentes inovações em IA Generativa e Large Language Models. A iniciativa, de fato, responde a uma demanda palpável do mercado por novas habilidades, e a oferta de um investimento mais acessível em Vitória demonstra uma boa intenção de democratizar o acesso a um conhecimento vital.
Contudo, por trás do brilho das ferramentas e da urgência em capacitar para o novo, ergue-se uma questão fundamental: que tipo de profissional estamos formando? Se a corrida é para “liderar a transformação digital”, o risco maior não está na obsolescência tecnológica – que é um problema prático –, mas na cegueira ética. Um curso focado predominantemente em “aplicações” e “ferramentas” pode, inadvertidamente, forjar meros operadores técnicos, e não verdadeiros líderes capazes de discernir o “porquê”, o “quando não” e, sobretudo, o “com que responsabilidade ética” usar as potentes engrenagens da inteligência artificial.
Aqui, a doutrina social da Igreja nos lembra que a tecnologia, por mais sofisticada que seja, é sempre um meio, jamais um fim. Pio XI, ao criticar a estatolatria, nos adverte contra qualquer forma de idolatria que submeta a pessoa a estruturas que deveriam servi-la. Ora, a tecnolatria – a crença de que a técnica por si só resolverá nossos problemas – pode levar à redução do indivíduo a mero “dado” em uma massa, como Pio XII alertou. A pessoa humana, em sua dignidade inalienável, é o sujeito e o fim de toda a ordem social, econômica e tecnológica. O marketing movido por IA, quando desprovido de um alicerce moral, corre o risco de virar um instrumento de manipulação psicologicamente invasiva, violando a liberdade ordenada do consumidor e a veracidade devida nas relações comerciais.
A justiça exige que, ao lado da agilidade técnica, se ensine a prudência na governança de dados, a ética algorítmica e o respeito à legislação de privacidade. Sem um espaço curricular robusto para a reflexão sobre vieses intrínsecos aos algoritmos, sobre o impacto socioeconômico de longo prazo da IA no consumo e no trabalho, e sobre como mitigar as assimetrias de poder que a tecnologia pode amplificar, a formação será incompleta. Não basta capacitar para otimizar resultados; é preciso formar para proteger o vulnerável, para desafiar o status quo quando ele se torna injusto e para construir um mercado mais equitativo. A “flexibilização de pagamento” é um começo, mas a verdadeira democratização do acesso a essa formação envolve também a democratização da capacidade crítica de julgar o que se aprende e como se aplica.
A sanidade, como diria um certo cronista, muitas vezes reside em não aceitar a lógica da loucura que nos cerca. É preciso recusar a ilusão de que a eficiência a qualquer custo é o único norte. A ESPM tem a oportunidade de ir além e consolidar um currículo que não apenas ensine a usar a IA, mas a questioná-la e a ordená-la ao bem humano. Isso significa formar profissionais com o arcabouço para identificar e mitigar vieses, para fomentar campanhas que promovam a inclusão e a equidade, e para entender que a verdadeira inovação não está apenas em um novo algoritmo, mas em um novo modelo de negócio que sirva à pessoa e à sociedade, e não o contrário.
A construção de um futuro digital não se sustenta apenas na velocidade das linhas de código, mas na solidez dos alicerces éticos que se lançam para cada nova geração.
Fonte original: Folha Vitória
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.