Quando a inteligência artificial desenha um novo horizonte de eficiência para o setor financeiro, a tinta luminosa dessa promessa pode, por vezes, encobrir as sombras que se estendem sobre os alicerces do trabalho humano. O estudo da Fundação Getúlio Vargas, ao reportar a eliminação de 18 mil postos e a criação de 12 mil novas vagas no setor financeiro brasileiro em dois anos, não nos apresenta apenas um dado técnico de modernização, mas uma contabilidade humana que exige juízo moral. Há, sim, uma aceleração notável: 78% das instituições já utilizam IA, contra 45% em 2023. As novas funções, como ciência de dados e engenharia de machine learning, prometem salários 40% superiores. Uma transformação, dizem, irreversível.
Mas o que é irreversível? A busca por eficiência ou a responsabilidade humana diante de suas consequências? A frieza dos números revela uma perda líquida de 6 mil empregos, e um abismo de qualificação que separa os que partem dos que chegam. Não se trata de uma simples troca, como se todos tivessem a mesma aptidão para migrar de um balcão de atendimento para um laboratório de algoritmos. Milhares de trabalhadores, especialmente em funções de atendimento ao cliente, análise de crédito e compliance, veem-se agora diante de uma obsolescência imposta, enquanto os que são valorizados entram numa elite remunerada. Essa discrepância não é apenas um “desafio de requalificação”, mas uma fenda que ameaça aprofundar a desigualdade e desordenar a vida comum.
A doutrina social da Igreja, que tem nos textos de Leão XIII e Pio XI seus alicerces sobre a ordem do trabalho e a justiça distributiva, ensina-nos que a propriedade (inclusive a do capital tecnológico) tem uma função social. Os ganhos de eficiência gerados pela IA não podem ser privatizados pelos que detêm o capital, enquanto os custos sociais do desemprego e da desqualificação são externalizados para os trabalhadores e para o Estado. É uma assimetria de poder gritante: as instituições financeiras colhem os frutos da automação, mas o fardo da adaptação recai desproporcionalmente sobre o indivíduo. A “transformação irreversível” não é um destino cego, mas uma escolha que, se não for temperada pela justiça, corrói o tecido social.
O Banco Central age com alguma prudência ao criar um grupo de trabalho para avaliar o viés algorítmico e a transparência. Contudo, essa iniciativa, embora necessária, não alcança a raiz do problema. É preciso ir além da regulação técnica e abraçar a questão da justiça na distribuição dos encargos e benefícios da inovação. O solidarismo, como caminho de cooperação orgânica entre capital e trabalho, propõe que as instituições financeiras, que lucram com a IA, assumam de forma efetiva o financiamento e a condução de programas robustos de requalificação. Não se trata de um favor, mas de um dever de justiça e de responsabilidade para com o trabalhador, cuja dignidade não se esgota em sua utilidade econômica.
A fé católica nos convoca à magnanimidade, a edificar uma civilização em que o progresso técnico sirva ao homem, e não o contrário. A sanidade, diria um Chesterton, está em não confundir a rapidez com a direção, nem a eficiência bruta com o bem. O fato de que as novas vagas paguem mais não é um álibi para descartar os que não se encaixam nesse molde. A verdadeira inovação não deixa ninguém para trás; ela busca elevar a todos. A urgência de um plano nacional de requalificação financiado pelas próprias instituições e pelo Estado, como bem apontado pelo Sindicato dos Bancários, é uma dívida de justiça que não pode ser adiada sob o pretexto de uma irreversibilidade conveniente.
A modernização que descarta parte significativa da força de trabalho sem um plano sólido de reintegração não é progresso humano, mas uma nova forma de exclusão. A verdadeira medida de um avanço tecnológico não se dá apenas na aceleração dos lucros ou na sofisticação dos algoritmos, mas na capacidade de uma sociedade em garantir que o homem, feito à imagem e semelhança de Deus, permaneça o centro e o fim de toda atividade. Não se confunde a modernidade da máquina com a maturidade de uma sociedade justa. A verdadeira inovação honra a dignidade do trabalhador, e não apenas a fluidez do capital.
Fonte original: Valor Econômico
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.