Quando a paisagem do trabalho se redefine, e o algoritmo assume cadeiras que outrora eram preenchidas por rostos e mãos, somos chamados a um juízo que transcende o mero balanço de ganhos e perdas na folha de pagamentos. Um estudo recente da Fundação Getúlio Vargas no setor financeiro brasileiro revela um movimento em espiral: nos últimos dois anos, a adoção da inteligência artificial eliminou cerca de 18 mil postos de trabalho, enquanto criava 12 mil novas vagas. O saldo líquido é, portanto, de 6 mil empregos perdidos no período, ainda que as posições emergentes paguem, em média, 40% a mais. A Dra. Marina Alves, coordenadora da pesquisa, crava a sentença: “A transformação é irreversível.” Mas a irreversibilidade tecnológica, por si só, não pode ser um salvo-conduto para a indiferença moral; ela impõe, antes, um imperativo de responsabilidade.
A preocupação legítima mais contundente não reside na mera flutuação dos números, mas no destino incerto dos 18 mil trabalhadores cujos postos foram varridos. A criação de 12 mil vagas em ciência de dados e engenharia de machine learning, embora bem-vindas e altamente remuneradas, não oferece um refúgio natural para o analista de crédito ou o profissional de atendimento ao cliente que viram suas funções automatizadas. Instala-se, então, um abismo de competências e uma distância salarial que aprofundam a desigualdade e lançam sobre os ombros dos indivíduos o custo de uma transição que deveria ser, antes de tudo, socialmente planejada e justa.
Essa assimetria de impacto expõe o que Pio XI, em sua clarividência sobre a ordem social, já denunciava como a falha em manter a “ordem profissional” e a devida solidariedade entre os “corpos intermediários”. As grandes instituições financeiras, que investem maciçamente em IA e colhem os frutos da eficiência e redução de custos, mostram-se reticentes em detalhar planos robustos e financiados de requalificação. Reduzir a questão a uma “transformação inevitável” sem um projeto concreto de amparo e reorientação para os deslocados é uma simplificação que, ao ignorar o drama humano, desumaniza o próprio progresso.
O Banco Central, ao anunciar um grupo de trabalho focado em “viés algorítmico e transparência nas decisões automatizadas”, toca em pontos cruciais da governança tecnológica. Contudo, essa atenção aos riscos técnicos e éticos da IA não pode obscurecer a urgência de uma perspectiva mais ampla, que contemple o “povo versus massa” de Pio XII, ou seja, que veja no trabalhador um sujeito de direitos e dignidade, e não uma massa numérica a ser realocada ou dispensada. O bem da cidade não se mede apenas pela eficiência de seus sistemas financeiros, mas pela capacidade de suas estruturas econômicas em garantir a todos uma participação digna e significativa na vida produtiva.
A modernização tecnológica, sem a contrapartida de um robusto projeto de transição humana, corre o risco de ser uma justiça pela metade. Não basta que a inovação crie uma elite de especialistas bem pagos enquanto uma vasta parcela da força de trabalho é deixada à deriva. Chesterton, com sua argúcia para desmascarar as loucuras lógicas da modernidade, talvez diria que o progresso que não serve ao homem, mas o descarta em nome de uma eficiência abstrata, é uma das mais sutis formas de desumanidade. A verdadeira fortaleza de uma economia não reside apenas em seus lucros, mas em sua capacidade de edificar uma ordem que integre e valorize cada pessoa.
Que o chão movediço da inovação não nos faça esquecer que, sobre ele, pisam vidas que clamam por mais do que números na planilha; clamam por um futuro justo e digno.
Fonte original: Valor Econômico
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.