No silêncio das salas de servidores, onde algoritmos tecem a nova tapeçaria do mercado financeiro, um dado inquietante se revela: enquanto a inteligência artificial se alça à condição de protagonista, uma sombra se projeta sobre milhares de postos de trabalho. A Fundação Getúlio Vargas, com seu estudo criterioso, põe em números o que muitos já intuíam: nos últimos dois anos, 18 mil posições foram suprimidas em bancos, fintechs e seguradoras, ante a criação de 12 mil novas vagas. A Dra. Marina Alves não hesita em sentenciar que “a transformação é irreversível”, referindo-se à adoção maciça da IA, que saltou de 45% das instituições em 2023 para 78% atualmente.
É certo que as novas funções – em ciência de dados, engenharia de machine learning, gestão de riscos algorítmicos – oferecem remunerações até 40% superiores. A eficiência do sistema, medida em balancetes e ganhos de produtividade, parece inquestionável, e o setor financeiro se torna, a olhos vistos, mais robusto e produtivo para aqueles que dominam a nova linguagem das máquinas. Contudo, para quem, de fato, é irreversivelmente benéfica esta nova ordem? A questão, central, não pode ser abafada pelo entusiasmo técnico.
Aqui, a inteligência doutrinária do Catolicismo, ancorada em São Tomás de Aquino, nos convida a distinguir meios de fins. A tecnologia, por mais sofisticada que seja, é ferramenta; o homem, fim. E se a eficiência do capital cresce à custa da dignidade do trabalho de tantos, então o que se ganha em produtividade, perde-se em justiça. O saldo negativo de seis mil empregos não é uma mera estatística de mercado; é um corte profundo no tecido social, que polariza as oportunidades e cria um abismo entre uma elite técnica e milhares de famílias que veem suas qualificações tornarem-se obsoletas em áreas como atendimento ao cliente, análise de crédito e compliance.
A solução, longe de ser um mero incentivo à “requalificação individual”, demanda uma atuação coordenada e um olhar de caridade. É ilusório supor que os 18 mil trabalhadores deslocados possam, sem mais, transpor o fosso para as 12 mil novas vagas, que exigem anos de formação especializada e um capital intelectual que nem todos possuem. O Banco Central, ao criar um grupo de trabalho focado no viés algorítmico e na transparência, acerta em parte, mas sua mira precisa ir além da superfície regulatória. A verdadeira questão é a responsabilidade das instituições financeiras, que colhem os frutos da automação, em investir proativamente na transição de seus colaboradores, no fortalecimento de corpos intermediários e na criação de programas de formação que sejam, de fato, acessíveis e eficazes.
Celebrar a ‘irreversibilidade’ da mudança sem confrontar suas consequências mais ásperas é cair numa espécie de otimismo cego, que confunde progresso técnico com avanço civilizacional. O setor financeiro, que opera com a confiança pública e movimenta o sangue da economia, tem um dever maior do que apenas maximizar lucros com algoritmos eficientes. Seu destino está irremediavelmente ligado ao destino dos homens e mulheres que compõem a nação. A assimetria de ganhos e a fragilidade de oportunidades para a maioria não podem ser varridas para debaixo do tapete da inevitabilidade tecnológica.
A engenharia do futuro, para ser justa e virtuosa, precisa ter no coração a visão de Pio XII: um povo, e não uma massa de indivíduos isolados e descartáveis. As instituições não podem ser ilhas de prosperidade tecnológica em um oceano de vulnerabilidade humana. A verdadeira medida do progresso não reside apenas nos balancetes que exibem ganhos exponenciais, mas na capacidade de construir uma comunidade de trabalho coesa, onde o valor de cada pessoa precede o valor de cada máquina. O que se perde em braços e mentes, não se recupera apenas em linhas de código.
Fonte original: Valor Econômico
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.