A corrida pela inteligência artificial desponta no horizonte como a nova terra prometida, acenando com rios de capital e avanços tecnológicos que prometem revolucionar a produtividade. O Brasil, com sua vasta extensão territorial, oferta energética e estabilidade geopolítica, é cortejado como um solo fértil para essa nova semeadura de data centers, atraindo gigantes como a Oracle. De fato, a infraestrutura tecnológica é um pilar incontornável da modernidade, e a capacidade de processamento de dados se tornou o novo ouro do século. Todavia, a Igreja, em sua sabedoria milenar, adverte que nem todo brilho é ouro, e que o discernimento é a primeira virtude de um povo que anseia por progresso verdadeiro. A questão que se impõe, portanto, é: que frutos realmente colheremos dessa árvore tecnológica, e para quem?
Não basta celebrar a chegada de capital estrangeiro sem uma reflexão profunda sobre o modelo de desenvolvimento que se desenha. Há uma preocupação legítima em que o Brasil se torne uma mera “fazenda de nuvem”, um hospedeiro passivo de infraestrutura que oferece energia e espaço físico, enquanto a propriedade intelectual, os lucros e o controle estratégico da inteligência artificial são gerados e repatriados por empresas estrangeiras. Tal cenário perpetuaria um modelo de exportação de commodities digitais, em vez de fomentar uma soberania tecnológica e a agregação de valor local. A verdadeira prosperidade, à luz da doutrina social, não se mede apenas pelo volume de investimentos, mas pela capacidade de um país em reter e distribuir equitativamente os benefícios gerados em seu próprio território. Onde está a justiça para o trabalho e a inteligência nacionais nesse arranjo?
A promessa vaga de “novas funções” de trabalho, que “ainda nem sabemos quais serão”, soa como um aceno otimista diante da sombra do desemprego estrutural que a automação pela IA projeta sobre setores tradicionais. É uma ingenuidade que flerta com a irresponsabilidade omitir um plano concreto para a requalificação em larga escala da força de trabalho brasileira. O princípio da subsidiariedade, tão caro a Pio XI, nos ensina que o Estado deve fortalecer os corpos intermediários da sociedade – famílias, associações, empresas – para que eles possam, em seus respectivos âmbitos, prover a formação e o amparo necessários. Sem investimento robusto em formação dual e sem a consolidação de corpos intermediários que promovam o aprendizado contínuo, as “novas funções” serão privilégio de poucos, e a maioria será abandonada à própria sorte, aprofundando as desigualdades sociais.
Além dos empregos, há o desafio da soberania sobre os dados. Quando a infraestrutura tecnológica essencial é controlada por entidades multinacionais estrangeiras, surge a fragilidade da segurança nacional, especialmente em setores estratégicos e para dados sensíveis. A propriedade, ensinava Leão XIII, possui uma função social; mas, aqui, a “propriedade” dos dados críticos e da própria inteligência que os processa pode ser exercida por entes fora de nossa jurisdição. É preciso que o governo sábio estabeleça mecanismos de controle e auditoria que assegurem que o país mantenha sua autonomia e proteção, sem entregar o controle de seu destino digital a interesses externos.
Não podemos ignorar, também, o impacto ambiental e energético que a demanda massiva por eletricidade e água por parte de data centers de grande porte impõe. A “competitividade” que se exige de um país não pode traduzir-se em flexibilização regulatória, seja ambiental ou trabalhista, que onere o povo em detrimento de lucros privados. O desenvolvimento sustentável exige que se calcule o custo real dessas infraestruturas, garantindo que o consumo de recursos seja gerido com temperança e que a responsabilidade ambiental seja um pilar inegociável, e não uma moeda de troca.
Para que a era da inteligência artificial não se converta numa nova forma de dependência, o país precisa edificar sua casa com as mãos da justiça e os olhos da veracidade. Isso significa ir além da mera atração de servidores e exigir parcerias que incentivem a inovação local, a criação de propriedade difusa de tecnologia, o cooperativismo e a codeterminação de valor. O Brasil não deve ser apenas um polo de hospedagem, mas um polo de desenvolvimento e controle tecnológico, onde a riqueza gerada pela IA beneficie o conjunto da sociedade e não seja predominantemente repatriada. A verdadeira medida do progresso não é a velocidade da banda larga, mas a solidez dos alicerces morais sobre os quais a nação se ergue.
O futuro que se constrói sobre pilares digitais não pode ser um castelo de areia, mas uma edificação sólida para as gerações futuras. Que o Brasil, ao abraçar a tecnologia, o faça com a magnanimidade de quem pensa a longo prazo, forjando um destino comum com discernimento político e justiça, garantindo que o progresso técnico seja, antes de tudo, humano e sirva ao bem da cidade.
Fonte original: VEJA
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.