A euforia que irradia dos relatórios de sucesso das startups brasileiras, com cifras bilionárias de aquisição e a promessa de um Brasil na vanguarda da Inteligência Artificial, é um bálsamo para o orgulho nacional. Nomes como Brex, Kalshi, Wellhub e Ebanx são celebrados como símbolos de uma engenhosidade capaz de resolver problemas complexos, um diferencial que, segundo a cofundadora da Endeavor, Linda Rottenberg, nos coloca em posição privilegiada. Somos, de fato, o terceiro país em adoção de IA, e a agilidade em construir soluções com essas ferramentas é inegável. Mas, neste coro de exaltação, impõe-se a necessidade de um discernimento sóbrio, que separe o brilho da superfície da substância do alicerce.
A Doutrina Social da Igreja, desde Pio XI, adverte contra a tentação de uma “estatolatria” e defende a subsidiariedade como princípio vital para uma sociedade justa. Se as universidades brasileiras superam o setor privado como as maiores compradoras de GPUs da Nvidia – chips que são o motor da IA moderna –, com a UFG liderando este movimento, somos levados a questionar a estrutura fundamental dessa “adoção”. Estamos, de fato, construindo uma soberania tecnológica ou apenas capacitando o setor público para operar com ferramentas cuja base de hardware e desenvolvimento reside noutros centros de poder? A virtude da humildade nos ensina a reconhecer que a verdadeira força não reside em ostentar o que se adota, mas em edificar o que se possui, em construir as raízes do próprio avanço.
O caso da Kalshi, plataforma de previsões de mercado que processou um órgão regulador americano para operar e que busca no Brasil sua expansão internacional em parceria com a XP, ilustra outro ponto crucial. Modelos de negócio que prosperam explorando zonas cinzentas regulatórias levantam legítimas preocupações sobre a justiça e a estabilidade sistêmica. O mercado, embora motor de inovação, não pode prescindir da ordem moral pública e da proteção ao consumidor. A velocidade da tecnologia não pode ser um salvo-conduto para desconsiderar os impactos éticos e sociais da “gamificação” de eventos políticos e econômicos, que podem minar a estabilidade social e a capacidade de tomada de decisões informadas.
Mais grave ainda é a redefinição de sistemas de IA como “funcionários virtuais”, conforme adotado pela Brex. Esta mudança de terminologia não é meramente semântica; ela toca a própria essência do trabalho humano. A dignidade da pessoa humana, princípio inegociável da Doutrina Social da Igreja, exige que o trabalho seja compreendido não apenas como um meio de produção, mas como expressão da criatividade e da vocação humana. Substituir “agentes” por “funcionários virtuais” arrisca minimizar as implicações profundas para o futuro do emprego, a requalificação necessária e a precarização de funções. É preciso um olhar de justiça para com os trabalhadores que serão impactados, garantindo que a inovação não se transforme em desamparo social.
A celebração incessante de “unicórnios” e grandes aquisições, embora possa inspirar, tende a ofuscar a necessidade de um projeto civilizacional mais amplo para a IA no Brasil. Não basta apenas que sejamos bons em “entender problemas complexos” ou em “construir mais rápido” se essa agilidade se baseia em uma dependência tecnológica crônica, sem o desenvolvimento de modelos de IA fundamentais ou hardware proprietário. O país arrisca-se a ser um mero integrador sofisticado, um “terceirizado de alta tecnologia” para o mundo desenvolvido, ao invés de um criador soberano de seu próprio futuro digital.
É imperativo que o Brasil transcenda a mera vocação de mercado consumidor e integrador. A estratégia de longo prazo deve envolver não só a adoção, mas um investimento robusto na criação e propriedade intelectual de modelos de IA fundamentais, garantindo transparência curricular nos institutos de formação e promovendo conselhos tripartites (escola-família-comunidade) que orientem uma educação para a soberania tecnológica e a ética do trabalho. Governos e órgãos reguladores, em vez de reagirem a pressões jurídicas, devem antecipar-se, estabelecendo um quadro regulatório justo que promova a inovação sem negligenciar a caridade para com os mais vulneráveis e a magnanimidade de um projeto que abranja a todos.
A verdadeira inovação, para florescer em solo fértil, exige não apenas velocidade, mas profundidade; não apenas adoção, mas a coragem de construir seus próprios alicerces sobre a rocha da justiça social e da dignidade humana.
Fonte original: Valor Econômico
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.