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HPV na Bahia: Estado Ignora Baixa Vacinação e a Crise de Confiança

Baixa vacinação HPV na Bahia expõe falhas estatais e crise de confiança. Com 500 mil jovens em risco, a coluna defende comunicação transparente e responsabilidade pública.

🟢 Análise

A mancha escura de mais de quinhentos mil jovens desprotegidos contra o HPV na Bahia não é apenas um número frio nas planilhas do Ministério da Saúde. É uma rachadura visível na estrutura da saúde pública, um risco latente que se instala na vida de meninos e meninas, expondo-os a cânceres graves e verrugas genitais que poderiam ser prevenidos. Em Salvador, quase noventa mil pré-adolescentes e adolescentes entre 9 e 14 anos permanecem sem a vacina, e a taxa de cobertura de apenas 8% para as crianças de 9 anos é um sinal de alerta estridente que exige atenção imediata e um diagnóstico preciso.

No entanto, a explicação simplista de que a baixa adesão se deve primariamente à “desinformação” ou a “fatores culturais” revela, ela mesma, uma miopia que impede a solução. Reduzir a complexidade de um desafio de saúde pública a uma falha unilateral da população é uma manobra retórica que desvia o olhar das próprias instituições. Quando a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) sequer se digna a responder aos questionamentos sobre o tema, a suspeita se instala: a “desinformação” não seria, porventura, a desculpa mais conveniente para camuflar falhas de comunicação, acesso e gestão?

A Doutrina Social da Igreja ensina, desde Leão XIII, que a família é a sociedade primeira e natural, anterior ao Estado. Sua autoridade na educação e na saúde dos filhos não pode ser usurilhada. É certo que pais e responsáveis têm um dever inalienável de zelar pela saúde de suas crianças, levando-as à vacinação. Mas a aplicação do princípio da subsidiariedade, tão caro a Pio XI, exige que o Estado não se desloque para culpar o indivíduo sem antes esgotar todas as suas próprias responsabilidades. Isso significa não apenas disponibilizar a vacina, mas garantir que a informação chegue de forma inteligível, contextualizada e respeitosa, superando barreiras logísticas e construindo confiança onde ela se desfez. Onde a confiança falha, não basta mais folhetos.

A virtude da veracidade exige que a comunicação pública sobre o HPV seja completa e matizada. Sim, a vacina é uma conquista formidável da medicina preventiva, capaz de evitar cerca de 90% dos casos de câncer de colo do útero e outros tumores malignos. Contudo, é também verdade, como a própria ficha factual aponta, que a maioria das infecções por HPV é autolimitada e que o organismo pode eliminá-las espontaneamente. Tampouco a vacinação deve ser vendida como uma “licença” para a negligência de outras práticas de saúde sexual segura, como o uso de preservativos e o rastreamento periódico via Papanicolau. O alarme sem nuances e a promessa de uma “bala mágica” não educam; apenas produzem uma desconfiança silenciosa.

Pio XII, ao falar sobre povo versus massa, advertia contra a comunicação que trata o cidadão como um mero receptor passivo. A comunicação sobre saúde não pode ser unidirecional, um mero despejo de fatos técnicos. Ela precisa ser um diálogo que compreenda as preocupações, responda às dúvidas legítimas e, acima de tudo, inspire confiança. Os dados que mostram municípios como Gongogi e Piripá atingindo mais de 90% de cobertura vacinal não são apenas estatísticas; são faróis de boas práticas que deveriam iluminar todo o estado. O que esses municípios fazem de diferente, além de combater a “desinformação”, para alcançar tamanha adesão? A resposta a essa pergunta reside na capacidade de gestores locais de escutar, engajar e construir pontes comunitárias, superando a distância entre a burocracia estatal e as famílias.

A saúde pública é um bem da coletividade que se ergue sobre pilares de confiança, transparência e responsabilidade compartilhada. A vacinação contra o HPV é uma ferramenta poderosa na defesa da vida e da saúde, mas sua plena eficácia não se alcançará pela mera imposição ou pela desqualificação de quem hesita. É necessário que o Estado, por meio de suas secretarias de saúde, assuma sua quota de responsabilidade, não apenas oferecendo a vacina, mas também a verdade integral sobre ela, dialogando com as famílias, fortalecendo a presença nos territórios e agindo com a justiça devida ao cidadão.

A construção de uma sociedade sã não se faz apenas com a ciência dos laboratórios, mas com a arte da política e a retidão da verdade.

Fonte original: Correio

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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