O estampido dos mísseis iranianos nos Emirados Árabes, o fechamento temporário de um aeroporto em Dubai, a suspensão de embarques em Fujairah – tudo isso ecoa não apenas a fúria de um conflito regional, mas também a surdez calculada de nações que optam pelo desengajamento. Quando Donald Trump, com sua habitual franqueza abrasiva, apela por ajuda militar para proteger o Estreito de Hormuz, a resposta de uma constelação de aliados é um enfático não. A justificativa? “Não é a nossa guerra”, “Não é assunto da Otan”, “Não temos apetite”.
Esse é o resumo cru de uma realidade perigosa: o Estreito de Hormuz, garganta por onde escoa um quinto do petróleo e gás natural liquefeito que alimenta o mundo, está sob pressão de uma teocracia iraniana que usa ataques e ameaças como arma de barganha. A guerra, iniciada há pouco mais de duas semanas por Estados Unidos e Israel, encontra no Irã um adversário que, ao invés de recuar, intensifica a desestabilização regional. As consequências são imediatas: preços de energia oscilando, acesso a reservas de emergência exigido, e a economia global sob o fio da navalha. Ninguém pode se dizer indiferente a tal cenário.
É justo e necessário reconhecer a legitimidade de algumas preocupações. A intervenção militar unilateral de Washington e Tel Aviv levanta questões sobre o mandato internacional e a potencial escalada descontrolada do conflito. A prioridade pela diplomacia é, em princípio, sempre a via preferível, e a Aliança Atlântica, em sua concepção, tem um escopo geográfico bem definido. Os aliados têm, sim, o direito de questionar as premissas e a liderança de uma política externa “America First” que, historicamente, nem sempre respeitou a concertação. Mas o discernimento prudente distingue a crítica fundamentada da inação conveniente.
A Doutrina Social da Igreja, contudo, nos ensina sobre a imperiosa necessidade da solidariedade e da justiça nas relações internacionais. Não se pode colher os frutos da segurança energética e do comércio global – que a todos beneficia – sem partilhar os fardos de sua defesa. A recusa em guarnecer os postos em Hormuz, disfarçada de prudência, é uma falha na fortaleza moral que se espera de nações responsáveis. É uma forma de estatolatria rasteira, um culto ao interesse nacional imediato que se recusa a enxergar as ramificações globais e o destino comum da humanidade. Pio XI, em suas encíclicas, já alertava para os perigos de uma visão míope que fragmenta a ordem social em egos nacionais inarticulados.
Haveria algo de tragicômico na cena, se não fosse tão grave. Um Chesterton de nossos dias, com sua acuidade para o paradoxo, notaria a loucura lógica de um mundo que se queixa do preço do pão mas se recusa a proteger os moinhos. A tese de que “esta guerra não é da Europa” pode parecer racional à primeira vista, mas ela ignora que a economia da Europa, seus empregos e sua estabilidade dependem umbilicalmente da passagem segura por aquela estreita faixa de água. Esse “não-apetite” europeu não é, na prática, um desengajamento; é uma terceirização da segurança marítima para aqueles mesmos que são criticados por seu unilateralismo, enquanto se espera colher os benefícios da proteção alheia.
As pontes que se rompem no Estreito de Hormuz não são apenas entre nações, mas entre o princípio da cooperação e a prática da inação calculada. A ordem internacional não se sustenta por si mesma; ela é um edifício que exige a vigilância e o sacrifício de todos os seus habitantes. Quando a liberdade de navegação é ameaçada e a resposta é um silêncio eloquente ou uma recusa burocrática, o que se legitima é a coerção. O juízo não é apenas sobre a política externa americana, mas sobre a própria capacidade do Ocidente de se articular em defesa dos bens globais. A inação de hoje é a hipoteca de amanhã, cujo custo será pago não apenas em barris de petróleo, mas em credibilidade e em paz.
Fonte original: Notícias ao Minuto Brasil
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.