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‘Departamento da Guerra’: Hegseth Abandona Ética Militar nos EUA

Pete Hegseth transforma o Departamento de Defesa dos EUA em 'Guerra', priorizando letalidade e cortando proteção civil. Analisamos os riscos morais e estratégicos desta doutrina predatória.

🟢 Análise

A balança da justiça pende, por vezes, para um lado tão abrupto que chega a alarmar até o mais cético dos observadores. A decisão de renomear o Departamento de Defesa dos Estados Unidos para “Departamento da Guerra”, sob a tutela de Pete Hegseth, não é mera mudança de rótulo. É uma declaração de intenção, um grito emoldurado de cinismo que busca sepultar a noção de que, mesmo no fragor do conflito, a autoridade legítima se pauta por limites morais e pelo dever de proteger os inocentes. Cortar em 8% os gastos, ceifando iniciativas de proteção civil para reforçar a “letalidade máxima” das tropas, é trocar a bússola da reta razão pelo martelo da bruteza.

Esta nova doutrina, que Hegseth exalta como “letalidade máxima, não legalidade branda”, e “impacto violento, não politicamente correto”, revela um “realismo predatório” que desdenha qualquer “amarra moral”. Talvez pareça, aos olhos de alguns, um pragmatismo duro, mas necessário para um ambiente global hostil, uma forma de “cortar a gordura e aumentar os músculos”. Contudo, a tradição católica nos ensina que a guerra, por mais necessária que possa ser para defender a ordem justa, está sempre submetida a princípios de justiça: a distinção entre combatentes e não-combatentes, a proporcionalidade no uso da força e a busca pela paz como fim último. A eliminação do Centro de Excelência em Proteção Civil, reduzido a um único funcionário para mitigar riscos em vastas regiões de conflito, não é corte de “gordura”, mas amputação de um membro vital da consciência moral e estratégica.

As consequências dessa miopia moral são palpáveis, como demonstra o ataque à escola em Minab. Embora a investigação oficial sobre a causa do incidente ainda esteja em curso, as imagens dos destroços de um míssil Tomahawk em um local que não abrigava tropas, mas crianças e professores, gritam mais alto que qualquer discurso. A conduta de Pete Hegseth – seu histórico de incitação a teorias da conspiração, acusações de estupro e assédio, e a promoção de ideias racistas na mídia – não é apenas um detalhe biográfico. Ela molda a visão de mundo que agora comanda uma das maiores forças militares do planeta, lançando uma sombra de suspeita sobre a veracidade de suas intenções e a retidão de seus métodos.

Ainda que a intenção seja deter adversários, a história militar nos ensina que a desconsideração da vida civil quase sempre produz o efeito contrário. Como adverte a professora Mariana Kalil, os ataques a alvos civis podem gerar “reações de coesão nacionalista” entre a população, criando consenso em torno daquilo que os EUA buscam derrotar. Pio XII, em seus ensinamentos sobre o “povo versus massa”, alertou contra a despersonalização das coletividades, que as transforma em meros alvos ou números. Reduzir um povo a uma massa indistinta a ser intimidada ou aniquilada é não apenas uma falha moral, mas uma estratégia fadada ao fracasso no longo prazo, pois ignora a dignidade intrínseca de cada pessoa e a capacidade de reação de comunidades inteiras.

A verdadeira fortaleza de uma nação não reside apenas em sua capacidade de infligir dano, mas em sua adesão aos princípios que ordenam a convivência humana. A subordinação da “letalidade máxima” à “legalidade branda” e ao “politicamente correto” é um escárnio, pois os limites impostos à guerra não são burocracia desnecessária, mas a própria civilidade que distingue a defesa legítima da barbárie pura e simples. A justiça, aqui, exige não apenas a punição do mal, mas a proteção do inocente e a busca por uma paz que não seja mera ausência de tiros, mas uma ordem social justa. A autoridade legítima, em vez de se vangloriar de “liberar as mãos de nossos combatentes” para caçar e matar sem freios, deveria se preocupar em discernir os meios que verdadeiramente servem ao bem comum, mesmo na mais dura das batalhas.

A retórica de “cortar a gordura” mascara uma decisão perigosa de extirpar a própria consciência moral da operação militar. O “realismo predatório” pode parecer eficiente no curto prazo, mas semeia ventos de vingança e desconfiança que custarão caro às futuras gerações. É preciso recordar que, se o objetivo é a segurança nacional, esta não se sustenta no vácuo de uma terra arrasada, mas no solo fértil de uma ordem internacional que, com todas as suas imperfeições, ainda busca a justiça e a veracidade como pilares. Abandonar esses pilares é construir a própria derrocada sobre a ruína moral dos outros.

Em última análise, a força que se despoja de sua retidão não é mais forte, apenas mais cega.

Fonte original: O Globo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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