O cenário do Copacabana Palace, palco de um glamour que beira o onírico, abrigou na última quarta-feira um rito de passagem para a memória esportiva nacional. Cinco grandes nomes do olimpismo brasileiro, como Oscar Schmidt e as duplas Alex Welter/Lars Björkström e Ricardo Santos/Emanuel Rego, foram solenemente elevados ao Hall da Fama do Comitê Olímpico do Brasil. É justa a gratidão àqueles que, com suor e sacrifício, trouxeram glória e inspiração, quebrando jejuns e estabelecendo recordes. A recusa de Oscar Schmidt a ofertas milionárias pela pátria, a dedicação de duplas que moldaram o vôlei de praia, o pioneirismo da vela em Moscou; tudo isso é parte de um legado que, por direito, merece ser celebrado e reverenciado.
Contudo, se a intenção de honrar o passado é salutar, a forma como essa memória é erguida e perpetuada merece um olhar que transcenda o brilho dos holofotes. A ausência de critérios públicos e objetivos para a escolha dos homenageados pela “Comissão Avaliadora” levanta questões de justiça. Quem decide quais memórias são dignas de tal altar, e com base em quais princípios? Sem transparência, o processo corre o risco de tornar-se um clube fechado, construindo uma narrativa que, por mais bem-intencionada, pode ser opaca e excludente. A verdade devida à comunidade esportiva, em sua plenitude, exige clareza sobre os parâmetros que elevam uns e postergam outros.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente a partir de Pio XI, clama pela subsidiariedade e pela justiça social. No âmbito esportivo, isso significa que a autoridade máxima, como o COB, deve fortalecer o que está próximo, os corpos intermediários que compõem a vasta base do esporte brasileiro – clubes, federações regionais, associações de atletas de modalidades menos visíveis. A centralização excessiva do poder decisório, sem uma participação mais orgânica e representativa, pode gerar uma distância entre a elite celebrada e a realidade do dia a dia de milhares de atletas e treinadores que, com menos recursos e visibilidade, também constroem a “nação esportiva”.
A pompa da cerimônia no Copacabana Palace, embora compreensível para celebrar feitos grandiosos, pede temperança e humildade diante do real. Em um país onde a infraestrutura esportiva de base muitas vezes padece de carências básicas, a alocação de recursos para eventos de gala deve ser ponderada com responsabilidade. A prioridade não pode ser apenas a exaltação dos picos, mas o cultivo do solo de onde esses picos um dia surgirão. A magnanimidade exige tanto o reconhecimento dos grandes quanto o cuidado com os pequenos, em uma ordem que vise à elevação de todos. A lembrança do pai de Emanuel Rego, que aos 87 anos gravou duzentos DVDs de jogos do filho, ou de Paulo, que introduziu Ricardo Santos no vôlei e faleceu no ano anterior, são exemplos tocantes de heróis silenciosos, pilares invisíveis que também sustentam o edifício do esporte.
A verdadeira construção de um legado não se faz apenas com o polimento de estátuas, mas com a semeadura de um futuro justo. É preciso que o COB, ao honrar seus ídolos, demonstre um compromisso veraz com a diversidade de modalidades, a inclusão de atletas paralímpicos e a garantia de que as mulheres atletas tenham sua história contada com a devida força. A memória não pode ser um relicário para poucos, mas um farol que inspire a todos, desde as grandes arenas até os campos de várzea, com a honestidade de reconhecer que o esporte, em sua essência, floresce do trabalho anônimo e da paixão genuína, e não apenas do brilho das medalhas de ouro.
Que a memória dos grandes não seja uma estátua isolada, mas o farol que ilumina um caminho a ser trilhado com justiça, transparência e o amor veraz por cada semente plantada no vasto e complexo solo do esporte brasileiro.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.