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Guerra Santa: A Fé Como Arma Política em Conflitos Atuais

Líderes de EUA e Israel utilizam retórica religiosa para justificar ataques ao Irã. A coluna critica a instrumentalização da fé na política, que desvirtua o sagrado, desumaniza inimigos e alimenta a violência.

🟢 Análise

Quando a linguagem do templo se torna o brado de guerra do palácio, há uma profanação que fere a verdade da fé e a dignidade da política. Não se trata aqui de defender um laicismo estéril que expurgue qualquer dimensão religiosa da esfera pública, mas de discernir a fronteira inviolável entre a expressão sincera da consciência e a instrumentalização cínica do que é sagrado. Há duas décadas, a menção de “Gog e Magog” pelo então presidente americano George W. Bush para justificar uma invasão ao Iraque já soava a anacronismo e manipulação. Hoje, o retorno dessa retórica místico-bélica no ataque dos EUA e Israel ao Irã, com líderes evocando passagens bíblicas para legitimar a violência, não é apenas um eco, mas um perigoso retrocesso que exige clareza e honestidade.

Os fatos se acumulam com uma velocidade que choca a razão. Vimos pastores reunidos no Salão Oval da Casa Branca, supostamente orando por “Deus proteger nossos soldados” – um gesto que, por si só, é ambíguo. Mas a ambiguidade deu lugar à escancarada perversão quando o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, veterano de guerra com a tatuagem “Deus Vult” (Deus o quer) – grito de guerra das Cruzadas – realizou um ato religioso no Pentágono, citando as Escrituras para “arrancar os dentes” e “destruir” os “inimigos ímpios”, pedindo a “Senhor a nos conceder alvos claros e justos para atos de violência”. Tais palavras, proferidas da torre de comando militar, não são um consolo espiritual, mas uma caricatura perversa da fé, que transforma Deus num chefe de gabinete de guerra e a religião num adereço para a carnificina. A Fundação Militar para Liberdade Religiosa não à toa recebeu mais de 200 reclamações de proselitismo coercitivo, denunciando a erosão da liberdade de consciência dentro das próprias forças armadas.

Do lado israelense, a narrativa não é menos preocupante. O premier Benjamin Netanyahu, buscando apoio em sua base ortodoxa e diante de eleições iminentes, revisitou as origens do Purim para estabelecer um paralelo direto entre a ameaça do antigo Império Persa e o Irã de hoje, justificando assim a ofensiva. É inegável que o governo dos aiatolás prega a eliminação de Israel, e a teocracia iraniana opera sob uma lógica que é intrinsecamente religiosa em sua justificação para o poder e a guerra. No entanto, a confrontação com um adversário que enquadra toda a sua ação em termos religiosos não legitima que se espelhe o mesmo erro, transformando um conflito geopolítico complexo em uma “guerra santa” de um lado, enquanto se condena a “guerra santa” do outro.

A complexidade da alma humana e da vida pública não permite simplificações grosseiras. Há, sem dúvida, líderes que buscam guiar-se por sua fé genuína, entendendo-a como um imperativo moral para a ação política. E é lícito que a linguagem religiosa, como parte da cultura e da identidade de muitos povos, encontre seu lugar na praça pública. Mas há um abismo entre uma fé que informa a consciência do estadista, inclinando-o à justiça e à paz, e uma fé que é instrumentalizada como um verniz sagrado para a ambição política, a vingança militar ou o cálculo eleitoral. Pio XII, em seus alertas contra a massificação, já nos lembrava que o povo, com sua legítima religiosidade, não deve ser confundido com a massa amorfa e manipulável, cujas convicções são distorcidas para servir a fins alheios.

Quando a religião é reduzida a um artifício de comunicação para “escamotear a falta de estratégia geopolítica” ou “dialogar com parte importante de sua coalizão” eleitoral, como bem aponta Juan Cole, ela se desvirtua e, no processo, corrói a própria capacidade de discernimento do Estado. A veracidade dos objetivos da guerra, a justiça dos meios empregados e a caridade para com os afetados – mesmo os adversários – são princípios que devem reger a ação política e militar, e não podem ser substituídos por um messianismo que beira o fanatismo. A consequência é a desumanização do inimigo, a escalada da violência (como as 175 mortes em uma escola primária iraniana demonstram) e a erosão da ordem moral pública.

Não se defende, portanto, uma democracia sem alma, mas uma democracia onde a alma se expressa com liberdade e autenticidade, e não como refém do poder. A verdadeira realeza social de Cristo, como ensinou Pio XI, não se impõe pela espada do Estado ou pela retórica de cruzada, mas pela atração da verdade e da justiça, que transformam as sociedades de dentro para fora. É imperioso que se exija dos líderes políticos uma comunicação responsável, que não confunda a fé com a ideologia, nem a vocação sagrada com o proselitismo coercitivo. A paz, afinal, é fruto da justiça e da verdade, não de uma “guerra santa” que profana o nome de Deus para justificar a barbárie dos homens.

É hora de desarmar a retórica, pois as palavras carregam as pedras que os homens lançam.

Fonte original: O Globo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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