A guerra no Oriente Médio, deflagrada com promessas de aniquilação, apresenta-se menos como uma estratégia militar e mais como um espetáculo de intenções mutáveis, onde cada movimento do jogador principal reescreve o próprio tabuleiro. A “operação massiva e contínua” que alegou ter aniquilado a liderança iraniana, paradoxalmente, vê seus objetivos mais ambiciosos — como derrubar o regime e instalar um governo que “trate bem os Estados Unidos e Israel” — perdidos na fumaça dos bombardeios. O apelo ao povo iraniano para que assuma o controle do governo, logo após o uso de força devastadora, revela uma leitura pueril da história e da alma de uma nação, que, sob o Xá ou a República Islâmica, sempre cultivou um profundo senso de identidade persa e de repúdio a ingerências estrangeiras.
As declarações do Presidente Trump, que num dia prevê o fim do conflito em “dois ou três dias”, no seguinte em “quatro semanas”, e depois em “quatro a cinco semanas”, admitindo que “poderia durar mais”, não são meras imprecisões de linguagem. São a desintegração da veracidade como pilar da ação política. Essa oscilação, que alguns interpretam como “nebulosidade estratégica” calculada para desestabilizar adversários, é, na realidade, a dissolução da reta razão. A busca por “o urânio iraniano e os direitos de extração do petróleo”, bem como a referência a uma “operação inacreditável” na Venezuela como modelo, expõe a crueza de uma política que instrumentaliza a força para ganhos materiais diretos, desprezando a soberania e a autodeterminação dos povos como elementos fundamentais da ordem internacional.
A justiça, neste cenário, não é uma abstração a ser invocada, mas um clamor por uma ordem que se desfaz. A invasão de uma nação, sob pretextos que variam de “ameaças iminentes” à ambição por recursos, é um atentado à liberdade ordenada que Leão XIII tanto defendeu. A exaltação do interesse nacional a um ponto onde qualquer meio se justifica para atingir fins econômicos ou de controle é uma forma de estatolatria, já criticada por Pio XI, que reduz a dignidade das nações a meras peças num jogo de poder. Não se trata de uma “guerra sem fim” por ideologia, como Trump um dia criticou, mas uma guerra de meios indefinidos para fins puramente transacionais, cujas consequências recaem sobre os mais vulneráveis.
As repercussões não tardam a chegar: o bloqueio do Estreito de Ormuz, a disparada dos preços da gasolina, a queda da bolsa americana e a inflação crescente são o preço que a economia global, e sobretudo o cidadão comum, paga pela imprudência geopolítica. A base de apoio de Trump, outrora uníssona, já mostra rachaduras, com vozes influentes na direita questionando a sabedoria de uma intervenção que se descola dos princípios do “América Primeiro” em sua acepção original. Afinal, a promessa de não derramar sangue americano por “países estrangeiros” soa vazia quando a busca por domínio e recursos impulsiona o país para um conflito prolongado e de custos imprevisíveis.
Mesmo relatórios do Conselho Nacional de Inteligência dos EUA apontam para a improbabilidade de um colapso do regime iraniano por força militar, sublinhando a profunda inserção da Guarda Revolucionária Islâmica na sociedade. Ignorar tais advertências é uma demonstração de húbris, uma falta de humildade intelectual que substitui o juízo reto pela mera vontade. A crença de que é possível impor um governo a uma civilização milenar pela força, ou que a “aniquilação da liderança” automaticamente resulta em submissão, ignora a complexidade da realidade e a fortitude de um povo em face de ameaças externas.
Quando a liderança política se esquiva da veracidade e da justiça, as fundações da ordem desmoronam. O caminho da paz não se edifica sobre a areia movediça de narrativas contraditórias, nem sobre a pilhagem de recursos, mas sobre o respeito mútuo, a clareza de intenções e o compromisso com a lei moral. O juízo final é inequívoco: a guerra, em suas manifestações atuais, é um escândalo moral e uma calamidade que atenta contra a ordem da criação.
Quando a estratégia se dissolve em pretextos mutáveis, e a força se descola da verdade, o preço é pago por todos, e a história, invariavelmente, cobra sua dívida de justiça.
Fonte original: Diário do Centro do Mundo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.