O calendário, que em outras searas anunciava a primavera ou o recolher de colheitas, no Oriente Médio marca um mês de uma guerra que se alonga e se contorce como um dragão ferido. A ofensiva, iniciada por Estados Unidos e Israel com o ataque a infraestruturas iranianas e a morte do aiatolá Ali Khamenei, deveria ser um golpe cirúrgico, breve, de no máximo seis semanas, como sinalizou a Casa Branca. Mas a realidade em campo e nos gabinetes diplomáticos se revela um labirinto de declarações contraditórias, ameaças que não se cumprem e negociações mais veladas do que transparentes, lançando sobre o mundo uma sombra de incerteza e graves custos.
O panorama que se desenha é de uma clareza que se recusa a ser vista. De um lado, o presidente Donald Trump, figura central, transita entre ultimatos de “obliterar” usinas iranianas em 48 horas e o anúncio, dias depois, de que as negociações “estão indo muito bem”, estendendo prazos até 6 de abril. Essa dança retórica, que ora clama por acordo, ora insinua a falta de certeza sobre ele, não é um sinal de prudência estratégica, mas uma afronta à veracidade que a política internacional exige. O governo americano fala em um plano de 15 pontos, rejeitado publicamente pelo Irã como “excessivo e desconectado da realidade”, enquanto o mesmo Irã admite “contatos indiretos”, mas classifica as falas americanas sobre negociação como “reconhecimento de derrota”.
Os efeitos dessa instabilidade não se resumem à cortina de fumaça diplomática. A interdição de parte do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo mundial, catapultou o barril a valores não vistos em anos, impactando a economia global. A retaliação iraniana contra bases americanas e infraestruturas energéticas de aliados, e as acusações iranianas sobre ataques a alvos civis, como a escola em Minab que teria deixado 175 mortos – ainda que a autoria e os números careçam de verificação independente –, revelam o rastro de sofrimento humano que a guerra invariavelmente impõe. A dignidade da pessoa humana, em tais cenários, é a primeira vítima do fogo cruzado e da desinformação.
Em sua sabedoria, o Papa Pio XII já alertava contra a massificação da opinião pública e a instrumentalização da mídia, sublinhando a necessidade de uma comunicação responsável que distinga o povo da massa manipulável. No cenário atual, assistimos a uma teatralização do conflito, onde líderes, usando plataformas digitais, moldam narrativas internas e externas, por vezes, em detrimento da verdade factual. Trump, por um lado, tenta acalmar os mercados com promessas de paz; o Irã, por outro, mobiliza seus manifestantes com a narrativa de resistência, enquanto, segundo especialistas como Uriã Fancelli, reprime internamente a população, massacrando dezenas de milhares de cidadãos em protestos.
A sanidade, por vezes, assume a forma de um paradoxo gritante: o caminho mais “pragmático” da incerteza e da ameaça é, em última instância, o mais insano e destrutível. A instabilidade de um líder que ameaça “obliterar” e, em seguida, adia a ação, classificando as negociações como “muito boas”, não desorienta apenas o inimigo; fragiliza a credibilidade e a confiança necessárias para qualquer resolução justa. A verdade, nesta névoa de artimanhas, se torna a primeira baixa, e a justiça para os povos e para a ordem social, um ideal cada vez mais distante.
A busca por uma paz duradoura não se constrói sobre as areias movediças de uma diplomacia errática e de ultimatos protelados. Exige-se veracidade nas intenções, justiça nas propostas e uma liderança que não confunda a gestão da crise com a manipulação da realidade. A comunidade internacional, neste cenário de risco iminente de escalada e de custos globais crescentes, tem o dever de exigir que a política externa seja guiada pela reta razão e pela busca honesta de uma ordem justa.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.