No teatro da guerra, a névoa é inimiga do combatente. Mas quando a própria estratégia se compraza na neblina, semeando confusão deliberada e contradições abertas, o que se obtém não é vantagem, mas a erosão de todo fundamento moral e político. A tragédia de um conflito armado, já em si uma calamidade humana, aprofunda-se quando a retórica oficial se desvincula da realidade, transformando a verdade em mais uma vítima colateral.
Há um mês, os Estados Unidos e Israel travam uma guerra contra o Irã, e o mundo assiste não apenas aos mísseis, mas a um vaivém de declarações da Casa Branca que confundiria o mais experiente estrategista. De “quatro semanas” a “quase completa” num dia, e “apenas o começo” ou “reduzindo operações” no seguinte, a retórica oficial oscila como folha ao vento, enquanto o envio de mais três navios de guerra e 2.500 fuzileiros navais, somando 50 mil efetivos no Oriente Médio, escancara uma escalada real. O bloqueio do Estreito de Hormuz pelo Irã, por onde passa um quinto do petróleo mundial, já provocou a disparada dos preços e a sombra da recessão global a assombrar a todos. Argumenta-se que tal desconcerto público seria, na verdade, uma tática sofisticada: a ambiguidade estratégica que desorienta o adversário, gerencia expectativas e maximiza a flexibilidade. Uma “estratégia” do caos calculado.
Ora, a mais básica das balizas que regem a conduta de um Estado, e especialmente de um líder, é a veracidade. Um chefe de Estado que deliberadamente desfigura a realidade, não apenas para o inimigo, mas para o próprio povo, para os aliados e até para seus comandados, transforma a diplomacia em farsa e a governança em improviso perigoso. A verdade não é um luxo opcional na condução de um conflito; é o alicerce da confiança, sem a qual qualquer ação, por mais poderosa que seja, desmorona. Pio XII já advertia sobre os perigos de confundir “povo” com “massa”, onde a racionalidade e a capacidade de juízo são corroídas pela desinformação. O que resta de uma ordem moral pública quando a própria autoridade máxima se compraz em construir a realidade sobre a areia movediça de “bom pressentimento” ou justificativas contraditórias?
A instabilidade que emerge dessa “estratégia”, intencional ou não, cobra um preço altíssimo. Civis iranianos, aliados regionais dos EUA, a economia global — todos se tornam peões num jogo cujas regras mudam a cada 24 horas. O bloqueio de Hormuz e a disparada do petróleo não são “efeitos colaterais” abstratos; são golpes diretos na subsistência de milhões e na estabilidade do mundo. Quando o ataque inicial coincide com a mesa de negociações, mediadas por Omã, a própria ideia de busca pela paz, inerente a qualquer guerra justa, é comprometida desde o nascedouro. Não há justiça em uma escalada que se justifica com razões mutáveis, que instrumentaliza o conflito para fins que nem mesmo seus promotores conseguem unificar em um discurso coerente.
Pode-se imaginar um estrategista que vê genialidade no ato de se contradizer a cada novo dia, de empurrar o mundo para o precipício para então recuar e dizer que “já se alcançou o objetivo”. Mas Chesterton talvez sorrisse, com sua sagacidade peculiar, diante da loucura lógica que tenta fazer da confusão uma virtude e da incerteza um plano. A sanidade, ele nos lembraria, não é a ausência de surpresa, mas a capacidade de lidar com o real sem desfigurá-lo. A humildade diante da complexidade do mundo real e dos custos humanos da guerra é um freio que parece ter sido removido.
No fim, a verdadeira edificação da paz exige mais que a força das armas; exige a solidez da verdade. Pois é sobre a rocha da realidade e da honestidade que se constroem acordos duradouros, não sobre os escombros de uma retórica que destrói a própria capacidade de discernimento.
Fonte original: O Cafezinho
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.