O tambor da guerra no Irã, tão sombrio em suas ressonâncias humanas, foi paradoxalmente saudado por alguns como o arauto de uma nova era verde para o planeta. Dir-se-ia que a crise, ao expor a vulnerabilidade dos combustíveis fósseis, empurraria a humanidade para a salvação das renováveis. Contudo, uma leitura atenta aos fatos, desprovida da névoa de otimismos apressados, revela uma trama mais complexa e, em certos pontos, preocupante. A realidade que emerge das chaminés reativadas da Europa e da Ásia conta uma história que desafia a narrativa linear do progresso inexorável, lembrando-nos que a estrada da transição energética não é uma rampa suave, mas um terreno acidentado, cheio de desvios e precipícios.
A verdade nua e crua é que a disparada dos preços do gás, catalisada pela guerra no Irã – e já prefigurada pela invasão da Ucrânia em 2022 –, forçou nações a um recuo imediato, buscando a segurança no familiar e robusto carvão. A Tailândia reativou usinas, Japão e Coreia do Sul suspenderam limites de queima, a Alemanha viu suas termelétricas a carvão superarem as a gás, e a Itália, com um gesto que atrasa por mais de uma década, adiou o encerramento do carvão para 2038. Estes não são acidentes de percurso, mas decisões estratégicas tomadas sob o império da necessidade, demonstrando que, em face do risco de colapso econômico e social, a segurança energética – a capacidade de manter as luzes acesas e as indústrias funcionando – toma precedência sobre as metas de descarbonização de longo prazo. O carvão, com sua confiabilidade e independência climática, tornou-se, por um tempo, o porto seguro em mares revoltos.
Não se nega o avanço notável das energias renováveis. A capacidade global instalada de solar e eólica cresceu cerca de 50% desde o final de 2022, os preços dos painéis solares despencaram quase 70%, e os das baterias caíram 36%. Há sinais de maior interesse do consumidor. O presidente da EDP, Miguel Stilwell d’Andrade, afirmou que o cenário “é positivo para as renováveis” e que elas são “mais imunes a choques”. Mas essa perspectiva, embora legítima em si, precisa ser temperada pela veracidade. A capacidade instalada de renováveis (5,1 TW) não se traduz em equivalência prática da mesma ordem (estimada em ~1,5 TW), expondo a intermitência e a necessidade de backup ou armazenamento massivo, uma vulnerabilidade que o carvão não possui. Ademais, os “desafios perenes de processos de licenciamento e acesso à rede”, conforme sublinhado por executivos do setor, permanecem como gargalos estruturais, freando a implantação na velocidade que a emergência climática (e a retórica otimista) sugeriria.
O problema é agravado pelo fato de que o apoio político às renováveis já havia enfraquecido antes mesmo da guerra. Cortes de incentivos nos EUA, pedidos para Bruxelas recuar em sua agenda verde e apelos para reformar o esquema de comércio de carbono da UE já eram realidade. A crise atual, ao elevar os custos de vida e alimentar a inflação, fortalece discursos populistas avessos a políticas verdes que são percebidas como onerosas ou impraticáveis no curto prazo. A “independência energética”, neste contexto, não se traduz automaticamente em uma corrida por renováveis; ela pode ser lida como a busca por qualquer fonte que minimize a dependência externa, incluindo uma diversificação ou prolongamento do uso de combustíveis fósseis já disponíveis e economicamente viáveis.
Aqui se impõe um juízo reto, que não confunda o desejo com a realidade. A Doutrina Social da Igreja, informada pela sabedoria tomista, ensina que o bem comum exige um discernimento político capaz de sopesar a ordem dos bens. A segurança e a subsistência de um povo não são abstrações teóricas, mas necessidades concretas que os governantes têm o dever de garantir. A insistência em agendas verdes abstratas, que ignoram as realidades materiais e as legítimas preocupações com a estabilidade econômica, flerta com uma espécie de “estatolatria ecológica”, em que o plano centralizado e ideologicamente motivado atropela a prudência e a subsidiariedade. É preciso temperança na busca da solução, e justiça na distribuição dos encargos. O “povo”, em sua concretude, precisa de energia para viver; a “massa”, manipulada por narrativas simplistas, pode ser empurrada para soluções irrealistas.
A transição energética é um imperativo moral e prático, mas sua jornada não pode ser construída sobre a ilusão de que as crises geopolíticas são sempre aceleradoras do bem. Pelo contrário, muitas vezes revelam as fragilidades e as duras escolhas que as nações precisam fazer. O caminho a seguir exige, portanto, não apenas mais tecnologia, mas mais veracidade nas análises e mais prudência nas decisões. É preciso investir nos fundamentos: superar os desafios de infraestrutura, simplificar os licenciamentos e, acima de tudo, construir um consenso político robusto que não sucumba à pressão populista ou à tentação do atalho.
A verdadeira transição não acontecerá por decreto ideológico ou pela força bruta de uma crise, mas pela paciente e honesta edificação de uma infraestrutura energética que seja segura, justa e sustentável.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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