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Gripe: Vacina SUS e Privada expõem Desigualdade na Saúde

Temporada de gripe antecipa alerta: SUS oferece vacina trivalente, rede privada a tetravalente. Coluna questiona a desigualdade de acesso e a clareza do Ministério da Saúde.

🟢 Análise

A cada ano, o ciclo se renova, mas o alerta da Organização Pan-Americana da Saúde este ano soa com uma nota mais grave: a temporada de influenza nas Américas ameaça chegar mais cedo e com maior impacto. E, tal qual um roteiro já conhecido, a resposta do Brasil à iminente onda de gripe desenha-se em duas frentes distintas: a campanha nacional do SUS, que distribui a vacina trivalente, e a rede privada, onde a tetravalente, de cobertura mais ampla, está à disposição para quem pode pagar. É aqui, na fissura entre a promessa de proteção e a realidade da capacidade de compra, que reside a primeira e mais incômoda questão para a consciência pública.

Não se nega a eficácia da vacina trivalente oferecida pela rede pública, que protege contra três cepas do vírus influenza, conforme o desenho epidemiológico prioritário. Nem se ignora a louvável dedicação dos profissionais de saúde que a administram, priorizando idosos, crianças e gestantes. Contudo, a rede privada, com seu imunizante tetravalente que abarca uma linhagem adicional de Influenza B, e por vezes, o perigoso subclado J.2.4.1 do influenza A (H3N2) já detectado em dezenas de países, impõe uma realidade inescapável: a melhor proteção disponível é, para muitos, um luxo, com preços que podem dobrar o valor de um mínimo essencial.

A Doutrina Social da Igreja, arraigada na lei natural e na dignidade da pessoa humana, exige que o Estado, enquanto guardião do bem comum, assegure não apenas o mínimo, mas o ótimo possível em matéria de saúde pública, especialmente frente a uma ameaça generalizada. A vacinação, quando se torna um instrumento vital para a proteção coletiva, não pode ser reduzida a uma mera transação de mercado. Não se trata de desmerecer a iniciativa privada, que tem seu papel legítimo. Mas em um cenário de alerta epidemiológico, a coexistência de vacinas com coberturas distintas, onde a mais abrangente é reservada a quem pode pagar, tensiona o princípio da justiça distributiva e da solidariedade social.

A ausência de clareza do Ministério da Saúde sobre a justificativa técnica precisa para a manutenção exclusiva da vacina trivalente no SUS, diante do alerta global, é um ponto que exige veracidade. Como a população pode discernir adequadamente se a vacina gratuita do SUS é, de fato, suficiente, ou se a proteção adicional da tetravalente é crucial em um cenário de risco agravado? Reduzir a complexidade a um mero “ambas são eficazes” é um reducionismo que pode gerar desconfiança e minar a adesão. A honestidade intelectual impõe a distinção clara entre suficiência básica e proteção otimizada, especialmente quando a vida e a saúde estão em jogo.

Há uma ironia de contornos chestertonianos na modernidade que, tão hábil em desvendar os segredos moleculares dos vírus, mostra-se tão acanhada em garantir a equidade na distribuição de suas defesas. Não se trata de uma crítica à ciência, mas à lógica que permite que a genialidade da pesquisa se esgote na porta da farmácia, onde o acesso se mede em reais. O paradoxo é que a sociedade se orgulha de avanços sanitários, mas tolera uma segmentação que, no fim, fragiliza a todos, pois o vírus não escolhe carteira ou CEP.

A resposta não está em abolir o mercado, mas em elevar o patamar do acesso público. O Estado, para além de sua função reguladora, tem o dever moral de reavaliar sua estratégia de aquisição e distribuição. Se a ameaça de um subclado mais agressivo é real, como indicam os relatórios da Opas e da OMS, a prudência exige que se busquem caminhos para expandir a oferta da vacina tetravalente para o público em geral via SUS, ou, no mínimo, que se estabeleçam mecanismos de subsídio para quem não pode arcar com os custos na rede privada. A saúde pública não é um item de luxo, mas um direito fundamental, um pilar da civilidade. Pio XI, ao alertar contra a estatolatria e defender a justiça social, jamais endossaria a inação estatal frente à mercantilização de um bem essencial à vida coletiva.

Nesse outono que se anuncia, a verdadeira imunização passa também pela coragem de enfrentar a desigualdade, não apenas o vírus. A balança da saúde coletiva clama por um peso de justiça que não se dobre ao poder do dinheiro, mas se paute pela dignidade de cada vida.

Fonte original: globo.com

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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